Para muitas famílias, os gatos são companhia, rotina e afeto. Mas, quando circulam livremente no exterior, também podem tornar-se uma ponte silenciosa entre a vida selvagem, outros animais domésticos e as pessoas. Um artigo divulgado pelo ‘Science Alert’ chama a atenção para esse risco: os gatos que saem de casa podem trazer consigo mais agentes infecciosos do que muitos donos imaginam.
A questão não está apenas no facto de os animais poderem contactar com vírus, bactérias ou parasitas. Está na proximidade. Os humanos partilham mais agentes zoonóticos com animais domésticos do que com animais selvagens, precisamente porque cães e gatos vivem dentro ou perto das casas. Para um agente infeccioso, um animal de companhia pode funcionar como intermediário entre o exterior e o ambiente familiar.
Numa investigação recente, os autores reuniram dados de mais de 400 estudos para perceber como o estilo de vida dos gatos influencia a probabilidade de transportarem agentes patogénicos capazes de infetar pessoas. No conjunto analisado, foram detetados em gatos quase 100 agentes considerados zoonóticos, incluindo raiva, Toxoplasma gondii, lombrigas e Salmonella.
O dado mais relevante é este: os gatos domésticos com acesso livre ao exterior apresentaram uma probabilidade três a cinco vezes superior de transportar um agente zoonótico do que os gatos mantidos exclusivamente dentro de casa. Mais surpreendente ainda, os gatos com dono que circulavam livremente tinham probabilidades semelhantes às dos gatos assilvestrados de transportar pelo menos um desses agentes.
O risco ganha dimensão porque muitos gatos não ficam apenas no quintal. Caçam, entram em contacto com aves, roedores, morcegos, outros gatos e outros animais domésticos, e circulam por ambientes onde podem existir parasitas, toxinas ou agentes infecciosos. Os donos, alertam os investigadores, podem subestimar em cerca de 80% a atividade de caça dos seus gatos, o que significa que muitos contactos com presas passam despercebidos.
Essa ligação entre gato e vida selvagem pode criar caminhos inesperados para a entrada de doenças em casa. O artigo lembra que há casos documentados de gatos que levaram morcegos positivos para raiva para dentro de habitações. Roedores, aves e morcegos podem transportar agentes zoonóticos que, de outra forma, dificilmente entrariam em contacto direto com pessoas.
Mas o problema não se limita aos donos. Gatos que circulam livremente também defecam em jardins, parques, hortas, recreios e outros espaços partilhados. Dependendo do parasita, as fezes podem conter centenas ou mesmo centenas de milhares de ovos, capazes de persistir no solo ou na água durante meses ou anos.
A solução mais direta, defendem os autores citados pelo ‘Science Alert’, não passa por negar aos gatos qualquer contacto com o exterior, mas por evitar a circulação sem supervisão. Isso pode incluir varandas protegidas, recintos próprios, passeios com trela ou períodos controlados ao ar livre.
Os cuidados veterinários continuam a ser essenciais. A vacinação, incluindo contra a raiva onde aplicável, e o tratamento contra parasitas ajudam a reduzir riscos. Ainda assim, como nem vacinas nem desparasitações cobrem todos os agentes associados à vida selvagem, limitar a exposição continua a ser a forma mais abrangente de proteção.
O debate é muitas vezes apresentado como uma escolha entre liberdade total e privação. Os investigadores consideram essa leitura enganadora. Tal como não se assume que os cães precisem de circular livremente por estradas, quintais alheios ou zonas de caça para terem bem-estar, também os gatos podem viver de forma saudável, enriquecida e mais segura com acesso exterior supervisionado.
No fundo, a recomendação não é transformar o gato num animal fechado e sem estímulos. É perceber que a liberdade sem controlo pode ter custos para a saúde pública, para a biodiversidade, para a vida selvagem e para o próprio animal. Proteger o gato, neste caso, também pode significar proteger a casa para onde ele regressa.













