O Ford Escort está de volta, mas dificilmente será reconhecido como o antigo herói popular de estrada e ralis. A ‘Top Gear’ revelou a versão final do Ford Escort Mk1 RS da Boreham Motorworks, uma recriação oficial autorizada pela Ford, construída de raiz, com tração traseira, caixa manual, menos de 900 quilos e uma versão de motor capaz de chegar às 10.000 rotações por minuto.
Não é um restomod clássico, nem uma continuação exata do modelo original. A Boreham define-o como uma interpretação retrofuturista do Escort Mk1 inspirado na competição, com aprovação oficial da Ford e uma engenharia que o coloca muito longe do carro simples e acessível que marcou várias gerações.
O preço ajuda a perceber a distância. O novo Escort começa nas 354 mil libras, cerca de 414 mil euros, antes de opções. E há opções relevantes, incluindo o motor TEN-K, precisamente o mais extremo e aquele que, segundo a publicação britânica, todos os clientes terão escolhido até agora.
Um Escort com alma de supercarro
A inspiração vem do Escort de competição da Alan Mann Racing que venceu o campeonato britânico de turismos em 1968. A Boreham já tinha recriado esse carro com especificações fiéis à época, mas este Mk1 RS vai muito mais longe: usa a estética e a filosofia do original como ponto de partida, acrescentando tecnologia moderna, materiais nobres e prestações dignas de máquinas muito mais exóticas.
A estrutura foi profundamente revista. O subchassis dianteiro é novo, as rodas da frente foram avançadas para aumentar a distância entre eixos em 30 milímetros e a rigidez do chassis cresceu 50%. O eixo traseiro passou a pesar metade do componente original, graças ao uso de alumínio e titânio. A carroçaria continua maioritariamente em aço, mas o capô e a tampa da bagageira são em carbono.
De série, o carro recebe um motor Twin Cam de 1.845 centímetros cúbicos, com 182 cavalos e 180 Nm de binário, capaz de chegar às 8.500 rotações por minuto. Mas é o motor opcional TEN-K que transforma este Escort numa peça verdadeiramente fora do comum.
10.000 rotações e mais potência por litro do que um Valkyrie
O TEN-K é um motor novo de quatro cilindros em linha, com 2.152 centímetros cúbicos, 16 válvulas, componentes maquinados e soluções inspiradas na Fórmula 1. A Boreham tinha apontado inicialmente para 300 cavalos, mas acabou por chegar aos 325.
O resultado é um motor atmosférico com 155 cavalos por litro, um valor superior ao de um Ferrari 458 Speciale e até ligeiramente acima do Aston Martin Valkyrie, dois nomes que ajudam a perceber o nível de ambição colocado num carro que continua a chamar-se Escort.
Com apenas 895 quilos, a relação peso-potência chega aos 363 cavalos por tonelada. O ‘Top Gear’ sublinha que este valor supera o de um Porsche 911 GT3, que fica nos 355 cavalos por tonelada. A promessa é simples: prestações modernas num formato analógico, compacto e muito leve.
A caixa é manual de cinco velocidades, fornecida pela Holinger, com primeira em posição dogleg e relações curtas. Os amortecedores ajustáveis R53 vêm da mesma empresa que fornece componentes para o Gordon Murray Automotive T.50, outro detalhe que mostra como a Boreham quis elevar o Escort a um patamar quase artesanal.
Pequeno por fora, luxuoso por dentro
À distância, o novo Escort mantém as proporções clássicas e as cavas de roda musculadas que sempre definiram o Mk1 de competição. Mas há sinais de modernidade, a começar pelos faróis LED, muito longe das óticas halogéneas do modelo original.
De perto, a diferença torna-se mais evidente. As pegas das portas, os espelhos e vários detalhes exteriores usam alumínio maquinado, com uma qualidade de acabamento muito acima do que alguma vez existiu num Escort de produção.
O interior também foi completamente redesenhado. Há pele, painéis em carbono, comandos próprios, conectividade para telemóvel, estrutura de proteção em fibra de carbono e até relógios Breitling opcionais no painel. Um deles é um cronómetro removível, outro um relógio de bolso, e os clientes podem ainda comprar um relógio de pulso a condizer.
A contradição está precisamente aí. O Escort nasceu como carro simples, acessível e popular. Esta versão transforma-o num objeto de luxo para colecionadores, com um preço que pode facilmente ultrapassar as 400 mil libras, cerca de 468 mil euros, depois de escolhidas as opções.
Só serão feitos 150 exemplares
A Boreham Motorworks vai produzir apenas 150 unidades deste Escort Mk1 RS. A exclusividade ajuda a explicar o preço, mas também levanta a questão central: até que ponto um Escort pode ser levado para um território tão caro sem se afastar demasiado da sua origem?
A própria comparação com outras preparações é inevitável. A ‘Top Gear’ lembra que existem empresas, como a MST, a construir Escort inspirados nos ralis por menos de metade do preço deste modelo. A diferença é que a Boreham não está apenas a restaurar ou modificar um carro antigo: está a construir um novo Escort com autorização da Ford e um nível de engenharia raramente associado ao nome.
A empresa promete dois anos de garantia ou 20.000 milhas, cerca de 32.000 quilómetros. E este poderá ser apenas o início de uma nova série de projetos históricos da Ford. A Boreham tem acordo com a marca para desenvolver outros modelos e o próximo deverá ser um RS200 inspirado no Grupo B, com motor central e tração integral.
O Escort popular ficou para trás
A grande prova virá na condução. No papel, o novo Escort tem todos os ingredientes para ser uma das máquinas mais entusiasmantes para estradas secundárias: peso baixo, motor atmosférico, tração traseira, caixa manual, direção pensada para ganhar precisão com a velocidade e dimensões compactas.
Mas também há uma tensão difícil de ignorar. Ao transformar um dos Ford mais populares da história num carro de centenas de milhares de euros, a Boreham criou o Escort mais exótico de sempre, mas também o mais distante das suas raízes.
Talvez a forma mais justa de o olhar não seja como um Escort demasiado caro. Talvez seja como uma tentativa de construir o derradeiro carro analógico para estradas sinuosas, usando uma silhueta que toda a gente conhece. A pergunta é se, ao preço de um supercarro, este pequeno Ford conseguirá entregar uma experiência à altura do mito.



















