A Casa Branca estará a analisar um plano para os Estados Unidos comprarem as ilhas Chagos, no Oceano Índico, numa nova tentativa de controlo territorial depois de Donald Trump não ter conseguido avançar com a ambição de adquirir a Gronelândia, escreve o ‘The Independent’. A proposta surge num momento de incerteza sobre o futuro do arquipélago, cuja soberania o Reino Unido aceitou transferir para as Maurícias, mantendo a base militar de Diego Garcia sob controlo conjunto britânico e americano.
De acordo com o jornal britânico, o plano de compra direta das ilhas é uma das opções apresentadas ao presidente americano enquanto Washington decide que posição tomar sobre o processo. A ideia ganhou força após atrasos na legislação britânica necessária para concluir a transferência do território, depois de os EUA terem retirado apoio ao acordo em janeiro.
Trump já tinha criticado duramente o tratado, classificando a cedência das ilhas como um “ato de grande estupidez”. A administração americana considera que o Reino Unido cometeria um erro ao entregar o Território Britânico do Oceano Índico, devido à importância estratégica de Diego Garcia para a segurança dos Estados Unidos.
Diego Garcia no centro da disputa
As ilhas Chagos são vistas como um ativo militar estratégico sobretudo por causa da base de Diego Garcia, utilizada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Localizada no Oceano Índico, a instalação permite projetar operações no Sudeste Asiático, acompanhar a presença militar chinesa na região e apoiar missões no Médio Oriente.
Um responsável americano disse ao ‘The Independent’ que a localização de Diego Garcia torna a base “vital e indispensável” para a segurança nacional dos Estados Unidos. A mesma fonte acrescentou que Washington mantém contactos regulares com os aliados britânicos para preservar a viabilidade da base como plataforma regional de segurança.
A proposta terá sido levantada diretamente junto de Trump pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, embora não seja, por agora, a opção principal em análise. A Casa Branca não comentou oficialmente a notícia.
Uma política externa marcada por ambições territoriais
O eventual interesse nas ilhas Chagos surge depois de Trump ter voltado a colocar a aquisição de territórios no centro da política externa americana. A Gronelândia foi o caso mais visível: o presidente defendeu durante meses que os interesses militares dos Estados Unidos justificavam a compra do território à Dinamarca, chegando a enviar o vice-presidente JD Vance à base americana naquele território ártico.
A pressão sobre a Gronelândia aumentou a tensão entre Washington e aliados europeus, incluindo o Reino Unido. A resistência de vários países da NATO acabou por travar a iniciativa, mas a lógica parece agora reaparecer nas Chagos, outro território cuja importância estratégica está ligada à presença militar americana.
O ‘The Independent’ enquadra ainda esta possível ofensiva no contexto de outras ameaças e movimentos territoriais feitos por Trump, incluindo declarações sobre o Canadá, a Venezuela, o Panamá e Cuba. A administração americana tem também reforçado a presença naval nas Caraíbas e conduzido operações militares contra embarcações que o presidente diz estarem ligadas ao tráfico de droga.
Reino Unido, Maurícias e a pressão americana
O Reino Unido controla as ilhas Chagos desde 1814, mas aceitou transferir a soberania para as Maurícias. O plano de Keir Starmer prevê que Diego Garcia continue sob controlo conjunto britânico e americano, preservando a função militar da base.
O problema está no apoio de Washington. Sem a concordância americana, o acordo torna-se politicamente mais difícil para Londres. A oposição de Trump coloca pressão adicional sobre Starmer, que já enfrentava críticas internas e externas quanto à transferência de soberania.
A disputa sobre as Chagos junta-se, assim, a outros pontos de tensão entre Trump e o primeiro-ministro britânico, incluindo divergências sobre a contribuição europeia e da NATO para a política de segurança americana. Para Washington, a questão central é garantir que Diego Garcia não perde valor estratégico nem fica exposta a influências consideradas hostis.
Maurícias diz que soberania não está em causa
Apesar das notícias sobre uma possível proposta americana, o Governo das Maurícias afirmou que não recebeu qualquer proposta oficial dos Estados Unidos para comprar as ilhas Chagos. As autoridades mauricianas reiteraram ainda que a soberania sobre o arquipélago não é negociável.
O caso deixa em aberto uma disputa com várias camadas: a descolonização de um território ainda ligado ao Reino Unido, a manutenção de uma das bases militares mais importantes dos Estados Unidos, a pressão estratégica no oceano Índico e a preferência de Trump por soluções de controlo direto.
Para já, a compra das Chagos não será a opção principal em cima da mesa. Mas o facto de estar a ser discutida mostra que, depois da Gronelândia, a administração americana continua disponível para olhar para territórios estratégicos como peças centrais da sua política externa.












