Publicar memes contra a inteligência artificial, protestar contra centros de dados ou criticar o avanço acelerado da tecnologia pode parecer apenas parte do debate público. Mas o ‘Unilad Tech’ escreve que documentos obtidos pela ‘WIRED’ levantam uma nova preocupação: o FBI, o Departamento de Segurança Interna dos EUA e centros de inteligência locais estarão a acompanhar sinais de “extremismo anti-tecnologia”.
A revelação surge num momento em que a inteligência artificial divide cada vez mais opiniões. Para uns, é uma ferramenta inevitável de produtividade e inovação. Para outros, representa ameaça ao emprego, à interação humana, à privacidade e até à segurança global. O que estes documentos sugerem é que parte dessa contestação poderá estar a ser observada pelas autoridades americanas sob uma lógica de segurança interna.
A ‘WIRED’ teve acesso a cerca de mil páginas de relatórios não publicados do Departamento de Segurança Interna, do FBI e de centros de fusão, estruturas que ligam agências federais às autoridades estaduais e locais nos EUA. Um relatório do New York Intelligence and Counterterrorism Bureau refere expressamente críticos da IA e usa a expressão “extremismo anti-tecnologia”.
O documento citado alerta para a possibilidade de a atmosfera “caótica” provocada pelas tecnologias emergentes de IA, nos próximos cinco anos, alimentar protestos de grande escala que possam degenerar em agitação civil ou atividade extremista violenta, sobretudo em grandes zonas urbanas como Nova Iorque.
A preocupação, porém, está no alcance da vigilância. A ‘WIRED’ nota que a expressão “extremismo anti-tecnologia” não aparece em relatórios ou guias públicos do FBI ou do Departamento de Segurança Interna sobre extremismo doméstico. Ainda assim, os centros de fusão estarão a monitorizar riscos associados a protestos, incluindo possíveis ataques a centros de dados.
Especialistas citados no artigo alertam para o risco de confundir crítica, protesto pacífico ou simples desconfiança tecnológica com ameaça de segurança. Spencer Reynolds, advogado sénior da NAACP Legal Defense Fund, considera que os relatórios de atividade suspeita são muitas vezes pouco fiáveis, baseados em comportamentos vagos ou inocentes, e podem permitir interpretações enviesadas por parte das autoridades.
Também Mauro Lubrano, investigador de extremismo e autor de Stop the Machines: The Rise of Anti-Technology, rejeita a violência contra a tecnologia, mas avisa que esse risco não deve servir de pretexto para transformar a IA e outras tecnologias emergentes em temas blindados à crítica pública.
Na resposta à ‘WIRED’, o FBI afirmou que investiga pessoas que cometem ou pretendem cometer atos violentos ou atividades criminosas que constituam crime federal ou ameaça à segurança nacional. O Departamento de Segurança Interna não respondeu ao pedido de comentário.
A questão que fica é menos tecnológica do que democrática: onde acaba a prevenção de violência e onde começa a criminalização da contestação? Num tempo em que a IA já mexe com trabalho, privacidade, criatividade, educação e política, vigiar quem critica a tecnologia pode abrir uma nova frente de tensão entre segurança, liberdade de expressão e protesto público.





