Da nova Guerra Fria à semana de 3 dias de trabalho: Estes são os cenários para a economia mundial em 2050

A economia mundial em 2050 poderá assumir configurações profundamente distintas da atual, desde um cenário de forte fragmentação geopolítica e retração do comércio global até um contexto de elevada cooperação tecnológica.

André Manuel Mendes

A economia mundial em 2050 poderá assumir configurações profundamente distintas da atual, desde um cenário de forte fragmentação geopolítica e retração do comércio global até um contexto de elevada cooperação tecnológica que poderá permitir semanas de trabalho de três ou quatro dias. A conclusão é de um novo estudo do Boston Consulting Group, através do BCG Henderson Institute, que traça quatro cenários macroeconómicos para as próximas duas décadas e meia.

O relatório, intitulado Beyond Tomorrow: Four Scenarios for the World of 2050, resulta da análise de mais de 100 megatendências globais e de um século de dados históricos. O objetivo, sublinha a consultora, não é prever o futuro, mas identificar sinais de mudança que permitam às empresas antecipar diferentes trajetórias possíveis da economia mundial.

Entre os principais eixos de transformação destacam-se o comércio internacional, a transição energética, a despesa em defesa e a reorganização do trabalho. De acordo com o estudo, o comércio global poderá representar apenas 35% do PIB mundial num cenário de blocos geopolíticos rivais — níveis semelhantes aos da Guerra Fria — ou manter-se próximo dos atuais 60%, caso prevaleça a cooperação internacional.

A despesa em defesa poderá igualmente sofrer uma forte expansão, atingindo até 7% do PIB global num contexto de rivalidade entre blocos. Já a eletricidade de baixo carbono poderá representar entre 55% e 90% da produção energética mundial, dependendo da velocidade da transição climática.

Pedro Pereira, Managing Director & Senior Partner da BCG em Lisboa, sublinha que nenhum dos cenários é mais provável do que outro, mas todos são plausíveis e relevantes para o planeamento estratégico das empresas.

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“Portugal, como economia aberta, exportadora e profundamente integrada no mercado europeu, está particularmente exposto ao rumo que o mundo vier a tomar. Um cenário de ‘Battling Blocs’, com colapso do comércio global, seria devastador para setores como o turismo, a indústria exportadora e os serviços. Já um cenário de ‘AI Abundance’ pode representar uma oportunidade de reinvenção, mas apenas para empresas que tenham investido em resiliência operacional, talento e flexibilidade digital. O erro estratégico é planear para um único futuro”, afirma.

O estudo organiza o futuro em quatro grandes trajetórias possíveis:

No cenário de “Abundância de Inteligência Artificial”, a cooperação global em torno de normas de IA acelera a produtividade e a transição energética. O PIB mundial mais do que triplica até 2050, com crescimento médio anual de cerca de 5%. As horas de trabalho caem cerca de 25%, com semanas de três ou quatro dias a tornarem-se mais comuns em várias regiões. A neutralidade carbónica torna-se uma trajetória credível, ainda que tardia.

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No cenário de “Blocos em confronto”, o mundo fragmenta-se em blocos rivais, com queda da cooperação internacional e reorganização das cadeias de valor. O comércio global desce para cerca de 35% do PIB e a despesa militar sobe para aproximadamente 7% do produto mundial. O crescimento económico abranda para cerca de 1,8% ao ano.

No cenário de “Coligação climática”, eventos climáticos extremos no final da década de 2020 levam governos e empresas a acelerar a ação climática. O aquecimento global estabiliza em torno de 1,8 °C e os mercados de carbono tornam-se globais. A quota dos combustíveis fósseis cai para 35% em 2050, enquanto a eletricidade de baixo carbono domina o sistema energético. O PIB cresce em média 2,5% ao ano.

Já no cenário de “Darwinismo digital”, a inovação tecnológica avança rapidamente com pouca regulação, impulsionando o crescimento económico, mas agravando desigualdades. O PIB global quase triplica, com crescimento médio de 4% ao ano, mas o 1% mais rico poderá concentrar quase metade da riqueza mundial. A gig economy expande-se e a automação substitui funções de natureza repetitiva e cognitiva.

Pedro Pereira reforça ainda que, independentemente do cenário, existem tendências transversais: maior volatilidade geopolítica, transformação do trabalho pela inteligência artificial, pressão demográfica e custos climáticos crescentes.

“Para as empresas portuguesas, muitas delas PMEs com recursos limitados, o essencial não é prever qual destes futuros se concretiza, mas desenvolver agilidade para reconhecer rapidamente a direção da mudança e ajustar a estratégia a tempo”, conclui.

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