O que é que acontece se os bancos diminuírem a taxa de esforço?

Taxa de esforço é uma conta simples: mostra quanto do rendimento mensal de uma família já está comprometido com prestações de crédito

Executive Digest com ComparaJá.pt

Comprar casa pode tornar-se mais difícil para algumas famílias se o Banco de Portugal avançar com regras mais apertadas no crédito à habitação. A medida pretende travar o endividamento excessivo, mas pode deixar muitos compradores fora da corrida pela casa que tinham em vista.

O Banco de Portugal quer apertar as regras de concessão de crédito à habitação e uma das hipóteses em cima da mesa passa por reduzir a taxa de esforço máxima aceite pelos bancos. Atualmente, a recomendação geral aponta para que o peso total dos créditos de uma família não ultrapasse 50% do rendimento líquido mensal. Segundo notícias recentes, esse limite poderá descer para valores entre 40% e 45%, embora a decisão final ainda não esteja fechada.

A taxa de esforço é uma conta simples: mostra quanto do rendimento mensal de uma família já está comprometido com prestações de crédito. Entra aqui o crédito da casa, o crédito automóvel, créditos pessoais, cartões de crédito e outros empréstimos. Por exemplo, se uma família recebe 2.000 euros líquidos por mês e paga 800 euros em prestações, tem uma taxa de esforço de 40%.

A regra é importante porque ajuda os bancos a perceber se uma pessoa consegue pagar um novo empréstimo sem ficar demasiado pressionada. Quanto mais alta for a taxa de esforço, menor é a margem para lidar com despesas inesperadas, como uma avaria no carro, uma doença, uma subida de juros ou uma quebra de rendimento.

Se o limite baixar, a consequência mais imediata será simples: muitas famílias poderão pedir menos dinheiro emprestado ao banco.
Imagine-se uma família com 2.000 euros líquidos por mês. Com uma taxa de esforço máxima de 50%, o banco poderia aceitar prestações totais até 1.000 euros mensais. Se o limite descer para 40%, essa margem cai para 800 euros. A diferença de 200 euros por mês pode parecer pequena, mas no crédito habitação pode representar dezenas de milhares de euros a menos no montante financiado.

Continue a ler após a publicidade

Isto significa que alguns compradores terão de procurar casas mais baratas, dar uma entrada inicial maior ou adiar a compra. Para quem já estava no limite da aprovação bancária, a mudança pode ser suficiente para transformar um “sim” num “não”.

A intenção do regulador é evitar que as famílias fiquem excessivamente endividadas. O Banco de Portugal tem regras macroprudenciais para novos créditos à habitação e ao consumo, precisamente para reduzir riscos no sistema financeiro e proteger os consumidores de situações de incumprimento. No acompanhamento mais recente, o regulador indicou que, em 2025, 94% dos novos créditos à habitação e ao consumo tinham uma taxa de esforço igual ou inferior a 50%.

A preocupação surge num contexto em que o mercado imobiliário continua caro e em que muitos compradores, sobretudo jovens, já dependem de prazos longos, entradas reduzidas e prestações elevadas para conseguir comprar casa.

Continue a ler após a publicidade

Ou seja, a medida não serve para baixar o preço das casas. Serve para limitar o risco de as famílias assumirem prestações demasiado pesadas face ao rendimento que têm.

Em muitos casos a medida pode proteger as famílias. Uma taxa de esforço mais baixa significa que sobra mais dinheiro ao fim do mês para alimentação, transportes, saúde, educação, poupança e imprevistos.

O problema é que esta proteção tem um custo: reduz o acesso ao crédito. Para algumas famílias, a regra pode evitar uma decisão financeira arriscada; para outras, pode simplesmente fechar a porta à compra de casa num mercado onde os preços continuam altos.
É por isso que a medida divide opiniões. Do ponto de vista da estabilidade financeira, faz sentido evitar empréstimos demasiado esticados. Do ponto de vista de quem tenta comprar a primeira casa, pode parecer mais um obstáculo.

Antes de pedir crédito, é essencial fazer contas com calma. Não basta perguntar ao banco “quanto é que me emprestam?”. A pergunta mais importante deve ser: “quanto consigo pagar todos os meses sem pôr em risco o resto da minha vida financeira?”.

Uma boa forma de começar é calcular a taxa de esforço e comparar diferentes cenários de crédito. O ComparaJá explica como calcular a taxa de esforço e lembra que este indicador inclui as prestações de créditos como habitação, automóvel, crédito pessoal e cartões de crédito. A plataforma também refere que, idealmente, a taxa de esforço não deve ultrapassar cerca de um terço do rendimento do agregado, embora no crédito habitação possa aproximar-se de valores mais altos.

Continue a ler após a publicidade

Para quem já tem crédito, a recomendação é rever encargos. Renegociar o crédito habitação, transferir o empréstimo para outro banco, consolidar créditos ou amortizar dívidas pequenas pode ajudar a baixar a taxa de esforço e melhorar a capacidade de aprovação.

Se o Banco de Portugal avançar com a redução da taxa de esforço máxima, os bancos ficarão mais exigentes na análise dos pedidos de crédito. Na prática, isto pode significar menos famílias aprovadas, montantes financiados mais baixos e maior necessidade de poupança inicial.

A medida pode proteger os consumidores de um endividamento excessivo, mas também pode tornar a compra de casa ainda mais difícil para quem já vive no limite entre salários, rendas, preços elevados e juros ainda pesados.

No fundo, baixar a taxa de esforço é como apertar o cinto antes de entrar numa viagem longa. Pode ser desconfortável no início, mas serve para evitar que a família chegue ao meio do caminho sem dinheiro para continuar.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.