Ford quer voltar a crescer na Europa com sete novos modelos e um sucessor espiritual do Fiesta

Marca americana quer voltar a ganhar terreno na Europa depois de anos marcados por cortes de emprego, redução de produção e perda de força no mercado automóvel do continente

Automonitor

A Ford quer voltar a ganhar terreno na Europa depois de anos marcados por cortes de emprego, redução de produção e perda de força no mercado automóvel do continente. A estratégia, detalhada pelo ‘El País’ e apresentada pela marca a concessionários e parceiros europeus em Salzburgo, passa pelo lançamento de sete novos modelos até 2029, uma nova plataforma global de comunicação e uma aposta reforçada nos veículos comerciais, no software e em soluções de mobilidade menos dependentes do elétrico puro.

Ford quer voltar a crescer na Europa

A ofensiva europeia da Ford terá duas frentes. Por um lado, a renovação da gama de passageiros com cinco novos modelos, todos pensados para o mercado europeu. Por outro, o reforço da Ford Pro, a divisão de comerciais e pick-up, que a marca considera o principal negócio na Europa e onde quer transformar veículos, dados e serviços digitais num ecossistema de produtividade para empresas.

Bronco será produzido em Valência

Um dos modelos mais importantes será um novo membro da família Bronco, que será produzido na fábrica de Almussafes, em Valência, a partir de 2028. O modelo será multienergia, ou seja, deverá contar com diferentes opções de motorização, e surge como peça-chave para revitalizar uma unidade industrial que atravessa uma fase crítica devido à baixa carga de trabalho.

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A fábrica espanhola produz atualmente apenas o Kuga e montou menos de 100 mil unidades no último ano, muito abaixo dos níveis registados antes da pandemia, quando Almussafes superava as 345 mil unidades anuais com vários modelos em produção, incluindo o Mondeo. O Bronco é, por isso, visto como uma aposta industrial decisiva para devolver volume à unidade valenciana.

Jim Baumbick, presidente da Ford Europa, apresentou o novo Bronco como “o carro que os clientes europeus estavam à espera” e defendeu que, num mercado saturado de opções, em particular de marcas chinesas, o modelo será “algo único” e “especial”. A produção, no entanto, só deverá arrancar em 2028, um ano mais tarde do que tinha sido inicialmente previsto.

Um sucessor espiritual do Fiesta?

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A estratégia inclui também dois veículos elétricos “acessíveis” que serão produzidos pela Renault no norte de França, no âmbito da parceria anunciada entre os dois grupos. Um deles será um hatchback do segmento B, próximo do território ocupado no passado pelo Ford Fiesta e comparável a modelos como o Renault 5. O outro será um SUV compacto elétrico, pensado para utilização urbana.

A possível recuperação do espaço deixado pelo Fiesta é um dos pontos mais simbólicos da ofensiva. A produção do histórico modelo terminou em junho de 2023, mas o mercado especula que a Ford poderá recuperar, direta ou indiretamente, parte desse posicionamento com o novo elétrico compacto. O Financial Times resumiu esse ângulo ao destacar que a marca prepara um sucessor do seu antigo best-seller para tentar relançar as vendas europeias.

Aposta multienergia ganha força

Além destes dois elétricos, a Ford prevê lançar mais dois crossover multienergia até 2029. A marca quer combinar o seu ADN de rali, desempenho e aventura com modelos adaptados às estradas europeias, desde centros urbanos a percursos de montanha. A nova plataforma global “Ready-Set-Ford” assenta precisamente em três territórios: trabalho, performance e aventura.

Esta aposta multienergia é também um sinal da mudança estratégica da Ford. Depois de ter investido fortemente no elétrico puro, a marca está a prolongar a vida comercial de soluções com motor de combustão ou sistemas híbridos, incluindo híbridos plug-in e elétricos de autonomia estendida. Segundo a informação citada pelo El País, esta alteração estratégica esteve associada a prejuízos superiores a 7 mil milhões de euros no último ano.

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Ford pressiona Bruxelas por regras mais flexíveis

Baumbick defende que a transição energética deve seguir um “caminho prático rumo à mobilidade livre de carbono” e deixou uma mensagem direta às autoridades europeias. “Não construímos veículos para cumprir obrigações regulamentares; construímos para as pessoas. O caminho mais rápido para zero emissões é aquele que os clientes de facto escolhem”, afirmou o presidente da Ford Europa.

A empresa pede, por isso, que Bruxelas tenha em conta a procura real dos consumidores, o ritmo de instalação da infraestrutura de carregamento e as dificuldades das pequenas empresas na transição para veículos comerciais elétricos. A Ford argumenta que metas demasiado agressivas podem levar muitos clientes a manter veículos antigos durante mais tempo, com efeitos contraproducentes na redução de emissões.

Ford Pro continua a ser o motor do negócio

No negócio profissional, a Ford Pro continuará a ser um dos pilares da operação europeia. A marca afirma que lidera o mercado europeu de comerciais há 11 anos consecutivos e quer que 25% dos resultados antes de juros e impostos desta divisão venham de software e serviços. No primeiro trimestre de 2026, as subscrições pagas de software cresceram 30%, para 879 mil a nível mundial.

A Ford está também a apostar nos chamados Uptime Services, serviços que usam dados dos veículos conectados para antecipar avarias, preparar oficinas e reduzir tempos de paragem. Desde 2019, todos os veículos Ford Pro são produzidos com modem integrado e há já mais de 1,2 milhões de clientes europeus conectados, gerando perto de seis milhões de sinais técnicos por dia.

Ranger Super Duty mira usos militares e industriais

Na gama comercial, há duas novidades em destaque. A Ranger Super Duty já está disponível e foi desenvolvida para utilizações exigentes, como silvicultura, mineração, resposta a emergências e uso militar. A pick-up pode atingir uma capacidade combinada de oito toneladas entre carga útil e reboque e rebocar até 4,5 toneladas, com suspensão reforçada e proteção inferior adicional.

Transit City aposta nas frotas urbanas

A segunda novidade é a Transit City, uma carrinha totalmente elétrica pensada para frotas urbanas e empresas que operam em cidades com zonas de emissões reduzidas ou apenas elétricas. O modelo deverá chegar aos concessionários ainda este ano e será proposto em três variantes, incluindo uma versão chassis-cabina para adaptações profissionais.

Uma ofensiva em três frentes

Com esta ofensiva, a Ford tenta reconstruir a sua posição europeia a partir de três frentes: novos modelos de passageiros, reforço dos comerciais e maior flexibilidade tecnológica na transição energética. A marca americana quer voltar a crescer num mercado cada vez mais pressionado por concorrentes chineses, novas exigências ambientais e consumidores que ainda não aderiram em massa ao elétrico puro.

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