Europa tem um dos maiores depósitos de terras raras do mundo, mas exploração pode nunca avançar

Terras raras, um grupo de 17 elementos minerais, são essenciais para a produção de microchips, baterias para carros elétricos, tecnologias de energia limpa e armamento

Francisco Laranjeira

Enterrado sob um vulcão adormecido há cerca de 580 milhões de anos, no sul da Noruega, está o maior depósito de terras raras conhecido na Europa e um dos maiores do mundo. Mas a sua exploração está longe de estar garantida.

A empresa mineira Rare Earth Norway revelou no mês passado que o depósito de Fensfeltet contém cerca de 15,9 milhões de toneladas de minerais de terras raras, um valor aproximadamente 80% superior ao estimado há dois anos, noticia o ‘El Confidencial’.

A descoberta é estratégica para a Europa. As terras raras, um grupo de 17 elementos minerais, são essenciais para a produção de microchips, baterias para carros elétricos, tecnologias de energia limpa e armamento.

Pela sua importância industrial e geopolítica, estes minerais têm sido descritos como o ‘novo petróleo’.

Europa quer reduzir dependência da China

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O depósito de Fensfeltet já foi classificado como tendo “importância estratégica” pelos países da União Europeia.

A razão é clara: a Europa continua perigosamente dependente da China para o abastecimento destes minerais. Atualmente, Pequim controla cerca de 98% do fornecimento de elementos de terras raras à indústria europeia.

Apesar de já terem sido identificados depósitos relevantes no norte da Suécia, na Gronelândia e agora na Noruega, não existe ainda qualquer mina de terras raras em funcionamento na Europa.

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Para Alf Reistad, diretor da Rare Earth Norway, o depósito norueguês poderia mudar parte desta equação.

Segundo o responsável, Fensfeltet tem potencial para suprir cerca de 30% das necessidades de terras raras da União Europeia.

“Chega de conversa”

A empresa queria colocar a mina em funcionamento até 2030, mas o projeto está condicionado por obstáculos ambientais, financeiros e administrativos.

A partir da cidade mineira de Ulefoss, Alf Reistad deixou ao El ‘Confidencial’ um apelo direto: “Chega de conversa, vamos agir para que a extração de terras raras possa começar.”

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Ainda assim, o próprio responsável reconhece que o caminho será longo. “É um processo longo; o tempo médio na Europa para colocar uma nova mina em funcionamento após a sua descoberta é de cerca de 20 anos”, afirmou.

Reistad espera que a mina possa arrancar dentro de cinco ou seis anos, mas deixa um aviso: se as autoridades norueguesas, a Comissão Europeia e os Estados-membros da UE não tomarem medidas, os recursos podem nunca vir a ser explorados.

Ambientalistas alertam para impacto na biodiversidade

O plano da Rare Earth Norway passa por criar uma mina subterrânea. Os minerais extraídos seriam transportados por um longo túnel até uma zona de processamento próxima, enquanto os resíduos seriam devolvidos à mina para evitar o afundamento do solo.

A localização do projeto, porém, já gerou forte contestação.

Relatórios ambientais apontam para impactos significativos na vegetação e na vida selvagem da zona, onde foram registadas 78 espécies protegidas, incluindo plantas, borboletas, anfíbios, fungos e líquenes.

Várias organizações ambientais pediram a intervenção do Governo norueguês. Argumentam que as autoridades municipais, responsáveis pela licença, têm recursos limitados para avaliar os danos potenciais e interesse financeiro na exploração da mina no território.

A Rare Earth Norway admite que existem desafios relevantes para a biodiversidade, mas defende que a decisão tem de pesar também as necessidades estratégicas da Europa.

“Precisamos de avaliar o que é mais importante: a extração de matérias-primas essenciais para toda a Europa ou o impacto disso no ambiente?”, questiona Alf Reistad.

Risco financeiro também trava projeto

Além do desafio ambiental, há um obstáculo económico.

A China, que domina o setor, apoia a sua própria indústria e pode baixar os preços dos minerais para afastar concorrentes. Reistad descreve esta prática como dumping e alerta que as regras normais de mercado não funcionam quando o principal concorrente é Pequim.

Os Estados Unidos já estão a responder com investimento público. Donald Trump aprovou recentemente 1,74 mil milhões de euros para apoiar duas empresas americanas especializadas na extração e processamento de terras raras, além de garantir preços mínimos durante os primeiros dez anos de operação.

Para Reistad, a União Europeia terá de fazer o mesmo se quiser tornar viável o depósito norueguês.

O responsável defende apoio financeiro europeu, incluindo garantias de preços mínimos, para reduzir o risco da operação e evitar que a Europa continue dependente da China ou dos Estados Unidos.

Noruega pondera entrada do Estado

Uma das hipóteses em cima da mesa passa pela criação de uma empresa estatal norueguesa que possa tornar-se coproprietária do projeto.

A ideia foi bem recebida pelo Governo de Oslo, mas ainda não há decisão final. “Para nós, trata-se de o Estado assumir parte do risco financeiro envolvido neste projeto, onde as regras normais do mercado não se aplicam porque o nosso concorrente é a China”, afirma Reistad.

O responsável insiste que o tempo é decisivo. Se a Europa não avançar rapidamente com soluções próprias, continuará a comprar minerais estratégicos ao exterior.

“Se não agirmos na Europa, a solução será comprar minerais estrangeiros; por isso, a rapidez é crucial”, alerta.

O caso norueguês resume o dilema europeu: há recursos, há necessidade industrial e há urgência geopolítica. Mas, entre licenças, ambiente e financiamento, o maior depósito de terras raras da Europa pode continuar enterrado.

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