A invenção que começou com um fracasso, passou pelas trincheiras da II Guerra Mundial e acabou nas suas calças

Origem desta peça remonta a 1893, na Feira Mundial de Chicago, quando Whitcomb Judson apresentou uma solução que prometia acabar com os incómodos atacadores das botas

Francisco Laranjeira

Está ali todos os dias, quase invisível, preso às calças, aos casacos, às malas ou às botas. Usa-se em segundos, sem grande pensamento, como se sempre tivesse existido. Mas o fecho-éclair tem uma história bem mais atribulada do que a sua simplicidade sugere: começou com uma invenção ridicularizada, atravessou guerras e acabou por mudar a forma como o mundo se veste.

O ‘ABC’ recorda que a origem desta peça remonta a 1893, na Feira Mundial de Chicago, quando Whitcomb Judson apresentou uma solução que prometia acabar com os incómodos atacadores das botas. Chamou-lhe uma espécie de ‘fechadura de fecho’, feita com dentes de metal. A ideia era ambiciosa, mas a execução ainda estava longe de convencer.

O dispositivo era pesado, prendia com facilidade e, pior ainda, podia abrir-se sozinho. Em vez de aplausos, recebeu troça. Judson acabou por morrer em 1909, arruinado e praticamente esquecido, deixando para trás uma invenção inacabada e uma viúva ligada a uma promessa que ainda não tinha encontrado o seu momento.

Esse momento chegaria através de Gideon Sundback, engenheiro sueco e genro de Judson. Marcado pela morte da mulher durante o parto, Sundback fechou-se no trabalho e dedicou-se a aperfeiçoar o mecanismo criado pelo sogro.

Foi uma obsessão técnica e pessoal. Sundback redesenhou os dentes, tornou-os mais finos e precisos, criou tiras mais flexíveis e desenvolveu um cursor capaz de unir as duas partes com maior fiabilidade. Em 1913, nascia o chamado ‘Fecho sem Gancho’, uma versão muito mais próxima do fecho-éclair moderno.

Continue a ler após a publicidade

A invenção, porém, ainda precisava de sair da oficina e entrar no mundo real. E foi a guerra que lhe abriu caminho.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados americanos nas trincheiras precisavam de soluções rápidas para fechar botas, bolsos e equipamento em condições duras, muitas vezes no meio da lama. O novo fecho revelou-se útil precisamente porque fazia em segundos aquilo que atacadores e botões tornavam mais lento.

Pouco depois, chegou aos casacos dos aviadores. Em grandes altitudes, onde o frio podia ser mortal, fechar rapidamente uma peça de roupa não era apenas uma questão de conforto: podia ser uma questão de sobrevivência.

Continue a ler após a publicidade

Em 1923, a empresa BF Goodrich deu-lhe o nome pelo qual ficaria conhecido em inglês: ‘zipper’, inspirado no som rápido e seco do mecanismo. Em Portugal, o termo mais comum seria fecho-éclair, também associado à ideia de rapidez.

Mas a entrada no vestuário quotidiano não foi imediata. A alta costura resistiu. Alfaiates, casas de moda e setores mais conservadores da sociedade continuavam a preferir botões, vistos como mais elegantes e adequados. O fecho era prático, sim, mas também parecia demasiado mecânico, moderno e pouco refinado.

A década de 1930 mudou esse cenário. O fecho começou a conquistar as calças masculinas, primeiro por razões de conveniência e depois por pura eficácia. A empresa francesa Éclair aplicou-o em macacões de voo, enquanto a Talon, sucessora da empresa ligada a Sundback, ajudou a introduzi-lo nas calças com abertura frontal.

Os homens, cansados de botões pouco práticos, aderiram. O que antes parecia uma excentricidade técnica começou a transformar-se num gesto diário: puxar, fechar, seguir.

A II Guerra Mundial acelerou a mudança. Com o metal dos botões a tornar-se mais escasso e valioso, os Estados Unidos recorreram cada vez mais a fechos de náilon. A solução espalhou-se por casacos, calças, botas e equipamento militar, porque permitia vestir, fechar e proteger em poucos segundos.

Continue a ler após a publicidade

O ‘ABC’ sublinha que o fecho-éclair acabou por fazer muito mais do que unir tecidos. Ajudou crianças a vestirem-se sozinhas, deu novas possibilidades à moda feminina, permitiu cortes mais ajustados e peças mais rápidas de usar, e tornou-se indispensável em sectores tão diferentes como o vestuário, a bagagem, o desporto ou a indústria militar.

Hoje, produzem-se cerca de 10 mil milhões de fechos por ano. É um império silencioso, escondido em peças que usamos sem reparar. Mas por trás daquele gesto simples — subir ou descer um fecho — há uma história de fracasso, luto, guerra, engenho e velocidade.

No fim, talvez seja essa a força das grandes invenções: quando finalmente vencem, tornam-se tão comuns que quase deixam de ser vistas.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.