“Não abrir até 4 de julho de 2276”: EUA enterram cápsula do tempo “à prova de zombies”

Cápsula será colocada no Independence National Historical Park, o mesmo espaço histórico associado aos documentos fundadores dos Estados Unidos

Francisco Laranjeira

Os Estados Unidos vão assinalar os 250 anos da independência com uma cápsula do tempo pensada para resistir a cheias, incêndios, terramotos improváveis e até, pelo menos em tom de brincadeira, a zombies. A ‘Popular Science’ conta a história deste objeto de quase 900 quilos que será enterrado em Filadélfia no dia 4 de julho de 2026, para só voltar a ser aberto em 2276.

A cápsula será colocada no Independence National Historical Park, o mesmo espaço histórico associado aos documentos fundadores dos Estados Unidos. A ideia é guardar uma espécie de retrato da América atual para as gerações que, daqui a 250 anos, celebrarem os 500 anos do país.

À primeira vista, enterrar objetos para o futuro parece simples. Na prática, o projeto obrigou engenheiros do National Institute of Standards and Technology, especialistas da Biblioteca do Congresso e o National Park Service a resolver um problema muito concreto: como construir uma cápsula capaz de atravessar dois séculos e meio debaixo de terra sem deixar entrar água.

A água foi, desde o início, o grande inimigo. O engenheiro Jay Nanninga, responsável pelo desenho da cápsula, explicou que tudo foi pensado para manter o interior seco. A solução passa por um sistema com duas partes: um cilindro onde ficarão os objetos e uma estrutura exterior semelhante a uma campânula, capaz de criar uma bolsa de ar e impedir a entrada de água se o solo ficar saturado.

A imagem usada para explicar o sistema é quase de filme: como um balde virado ao contrário dentro de uma piscina, ou como a cena de ‘Piratas das Caraíbas’ em que Jack Sparrow e Will Turner caminham debaixo de água respirando o ar preso num barco invertido.

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O resultado deverá permitir que a cápsula resista a inundações fortes. Incêndios florestais também não deverão ser problema, por ficar enterrada, e o risco sísmico na Pensilvânia é considerado muito baixo. E se o cenário extremo envolver zombies? Nanninga brinca que teriam dificuldades, porque aço inoxidável “não é divertido de comer”.

A cápsula final terá forma cilíndrica. O engenheiro chegou a imaginar uma versão em estrela, mais simbólica, mas a ideia foi abandonada por ser demasiado complexa. O cilindro venceu por uma razão prática: pode ser feito a partir de um tubo industrial, é mais barato, mais eficiente e tem menos zonas soldadas por onde a água poderia entrar.

O fecho também exigiu cuidado. Em vez de soldar a cápsula depois de colocar os objetos no interior, a equipa optou por um sistema com fio de índio, um metal que pode unir-se a frio quando pressionado. O fio será esmagado numa ranhura entre a tampa e o corpo da cápsula, criando uma vedação circular sem expor os objetos ao calor da soldadura.

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O projeto inicial nem sequer previa que a cápsula fosse enterrada. A intenção era integrá-la numa futura escultura do parque, inspirada no famoso desenho “Join, or Die”, de Benjamin Franklin. Mas a empresa responsável pelo granito concluiu que abrir espaço para a cápsula fragilizaria a estrutura. A equipa teve então de redesenhar o plano.

A ‘Popular Science’ sublinha que a adaptação constante foi uma das maiores dificuldades do projeto. A própria lista de objetos a guardar foi mudando, obrigando a alterar o espaço interior e a separar materiais que poderiam degradar-se ou interagir entre si ao longo do tempo.

A cápsula vai incluir objetos dos 50 estados americanos e de seis territórios, além de contributos dos três ramos do Governo federal e da comissão America250. A lista completa deverá ser conhecida em junho.

Há, no entanto, regras rígidas. Os objetos de papel serão guardados num compartimento separado dos restantes. Plásticos ficam de fora, porque libertam gases com o passar do tempo. Eletrónica também não entra. E, naturalmente, há limites de tamanho.

Quando estiver concluída, a cápsula vazia, juntamente com a campânula protetora, pesará cerca de 2.000 libras, aproximadamente 907 quilos. Terá 53 polegadas de altura, cerca de 1,35 metros, e será enterrada a 10 pés de profundidade, ou seja, pouco mais de três metros.

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A inscrição podia ser simples: não abrir antes de 4 de julho de 2276. Até lá, a cápsula ficará debaixo de terra com cartas, objetos e símbolos de uma América que tenta explicar a si própria quem era em 2026.

E se tudo correr como previsto, nem a água, nem o tempo, nem os zombies chegarão primeiro.

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