Portugal apresenta uma das cargas horárias semanais mais elevadas da União Europeia, salários abaixo da média e níveis significativos de precariedade entre os mais jovens, apesar de registar uma taxa de emprego acima da média europeia. Os dados constam de uma análise da Pordata, divulgada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos no âmbito do Dia do Trabalhador, que traça um retrato detalhado do mercado laboral em Portugal e na União Europeia.
Num universo de cerca de 208 milhões de trabalhadores na UE, mais de 5 milhões estão em Portugal. Apesar de o país se aproximar da média europeia em vários indicadores, persistem desafios estruturais relacionados com produtividade, valorização salarial e qualidade do emprego.
Taxa de emprego acima da média europeia
A taxa de emprego na União Europeia atingiu os 76,1% em 2025, considerando a população entre os 20 e os 64 anos. Portugal apresenta um valor superior, fixando-se nos 79,6%, o que coloca o país na 12.ª posição entre os Estados-membros.
Entre os países com melhores resultados destacam-se Malta, Países Baixos e Chéquia, enquanto Grécia, Roménia e Itália ocupam os últimos lugares. Em Portugal, a diferença entre homens e mulheres no acesso ao emprego existe, mas é mais reduzida do que na maioria dos países europeus.
Entre os jovens dos 25 aos 29 anos, Portugal apresenta uma das taxas de emprego mais elevadas da União Europeia, com 82,8%, ocupando a sétima posição. Ainda assim, tal como no resto da UE, os trabalhadores mais jovens tendem a ter níveis de emprego inferiores aos grupos etários mais velhos.
Portugal entre os países com mais horas de trabalho
A média europeia de trabalho semanal situa-se nas 37 horas, mas em Portugal esse valor sobe para 39,7 horas, colocando o país entre os que mais trabalham na União Europeia. Apenas Bulgária, Roménia, Polónia e Grécia registam cargas horárias superiores.
Esta realidade contrasta com países onde o trabalho a tempo parcial é mais comum, como Países Baixos, Dinamarca ou Alemanha, que apresentam médias significativamente mais baixas.
Salários continuam abaixo da média europeia
Os salários em Portugal continuam distantes dos valores praticados na União Europeia. Em 2024, o salário médio europeu situava-se nos 3.317 euros mensais, enquanto em Portugal ficava pelos 2.068 euros.
As diferenças são ainda mais evidentes quando comparadas com países como o Luxemburgo, onde o salário médio ultrapassa os 6.900 euros mensais. Já em países com remunerações mais baixas, como a Bulgária, os valores rondam os 1.200 euros.
O salário mínimo nacional fixou-se nos 920 euros em 2026, refletindo um aumento face ao ano anterior. Apesar disso, Portugal continua abaixo da média europeia em termos de rendimentos.
Precariedade elevada, sobretudo entre os jovens
Cerca de 13% dos trabalhadores da União Europeia têm contratos temporários, mas em Portugal essa percentagem sobe para 15,1%, colocando o país entre os que registam maior precariedade laboral.
A situação é particularmente preocupante entre os jovens. Na União Europeia, um em cada três trabalhadores com menos de 30 anos tem contrato temporário. Em Portugal, esse número é ainda mais elevado, com quase quatro em cada dez jovens em situação precária.
Entre trabalhadores estrangeiros, a diferença é ainda mais acentuada, com cerca de 34% em situação de trabalho temporário, face a aproximadamente 14% entre os nacionais.
Baixa adesão ao trabalho a tempo parcial
O trabalho a tempo parcial representa 18,8% do emprego na União Europeia, mas em Portugal tem uma expressão muito inferior, com apenas 8,1% dos trabalhadores nesta modalidade.
Este tipo de trabalho é mais comum entre mulheres e jovens, embora em Portugal a diferença entre géneros seja menos acentuada do que no resto da Europa.
Trabalho por conta própria e teletrabalho próximos da média
A percentagem de trabalhadores por conta própria em Portugal está alinhada com a média europeia, situando-se nos 14,7%. Já o teletrabalho é praticado por 21,3% dos trabalhadores portugueses, ligeiramente abaixo da média da União Europeia, que é de 23,1%.
Escolaridade ainda abaixo da média europeia
Apesar dos progressos registados na última década, Portugal continua abaixo da média europeia no nível de escolaridade da população ativa. Cerca de 35,2% dos trabalhadores têm ensino superior, enquanto na União Europeia esse valor sobe para 39,5%.
Existe uma relação clara entre níveis de escolaridade e salários, sendo que os países com maior percentagem de trabalhadores qualificados tendem também a apresentar melhores remunerações.
Produtividade continua a ser um desafio
A produtividade do trabalho em Portugal mantém-se abaixo da média europeia. Cada trabalhador contribui, em média, com cerca de 48 mil euros para o Produto Interno Bruto, face aos 74 mil euros registados na União Europeia.
Ainda assim, o país destaca-se em setores específicos, como energia, atividades financeiras e turismo, onde apresenta níveis de produtividade mais elevados.
Estrutura do emprego semelhante à europeia
A distribuição do emprego em Portugal segue de perto o padrão europeu, com a maioria dos trabalhadores concentrada em quatro grandes áreas: profissões intelectuais e científicas, serviços e vendas, indústria e construção, e funções técnicas intermédias.
Apesar dessa semelhança, Portugal apresenta maior peso no comércio e na restauração, refletindo a estrutura da sua economia.













