Na prática, um cluster funciona praticamente como uma colmeia: cada empresa mantém a sua autonomia, mas beneficia do contacto próximo com outras, partilhando recursos, conhecimento e até talento. Esta proximidade cria um ecossistema colaborativo que acelera a inovação e fortalece o tecido empresarial.
A troca de experiências, o acesso facilitado a fornecedores especializados e a partilha de infra-estruturas são algumas das vantagens mais evidentes. Além disso, os clusters atraem mão-de-obra qualificada e investimento, gerando crescimento sustentado.
Portugal já tem uma rede sólida de clusters empresariais, alguns deles com projecção internacional. O Cluster Automóvel é um dos mais conhecidos, integrando nomes como a Autoeuropa ou a Bosch.
No Alentejo, o Cluster Aeronáutico, Espaço e Defesa tem vindo a afirmar-se, enquanto no Norte o Cluster do Calçado e Moda reforça o peso exportador do sector. O Cluster da Saúde, que junta hospitais, universidades e empresas tecnológicas, e o Cluster das Energias Renováveis são outros exemplos de sucesso.
Também o Cluster do Mar Português tem desempenhado um papel estratégico na economia azul, promovendo a investigação e a valorização dos recursos marítimos.
Nem todos os clusters são iguais. Há os industriais, que reúnem empresas do mesmo sector — como o automóvel ou o têxtil —, e os tecnológicos, que agregam organizações ligadas às tecnologias de informação e comunicação.
Existem ainda modelos híbridos, que juntam empresas de sectores complementares, como o Health Cluster Portugal ou o Cluster do Turismo, em que hospitais, universidades, empresas tecnológicas e entidades públicas colaboram lado a lado.
MOTOR DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Os clusters têm vindo a demonstrar que o desenvolvimento económico pode nascer da colaboração. Ao aproximarem empresas, centros de investigação e universidades, criam um ambiente favorável à transferência de conhecimento e à criação de novos projectos.
O sucesso, no entanto, não acontece por acaso. Depende tanto da capacidade das empresas de cooperarem como do apoio de políticas públicas que assegurem infra-estruturas, incentivos e financiamento.
Em Portugal, o apoio europeu tem sido essencial para consolidar esta rede de ecossistemas empresariais. E, a avaliar pelos resultados, tudo indica que os clusters continuarão a ser uma das principais apostas para reforçar a competitividade da economia nacional.
No entanto, a realidade pode ainda encontrar muitas barreiras e desafios no nosso país. “Os clusters regionais na nossa região, à semelhança do resto do país, ainda estão aquém do desejado”, admite Ramiro Brito, presidente da Associação Empresarial do Minho (AEMinho).

RAMIRO BRITO, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL DO MINHO (AEMINHO): “OS CLUSTERS REGIONAIS NA NOSSA REGIÃO, À SEMELHANÇA DO RESTO DO PAÍS, AINDA ESTÃO AQUÉM DO DESEJADO”
O empresário refere que «a organização política e os próprios ciclos políticos não privilegiam uma visão regional da economia, nem uma cooperação intermunicipal que favoreça essa estratégia de criação de clusters empresariais sectoriais, estruturados por actividades económicas, muitas vezes até numa visão complementar do próprio território».
Mais a Sul, logo abaixo da linha do Tejo, os clusters do sector Automóvel e da Defesa são os que têm maior oportunidade de crescimento. No entanto, Luís Realista, director da Associação da Industrial da Península de Setúbal (AISET), destaca «a ausência de empenho por parte das iniciativas de recuperação de matérias-primas nobres em sectores como o desmantelamento automóvel», que pode fornecer polímeros e ligas metálicas ao sector da indústria da defesa ou até mesmo ao automóvel e, por exemplo, aos drones.

LUÍS REALISTA, DIRECTOR DA ASSOCIAÇÃO DA INDUSTRIAL DA PENÍNSULA DE SETÚBAL (AISET): “POLÍTICAS DE AGREGAÇÃO E DE APOIO A ECOSSISTEMAS PRECISAM DE MATURIDADE E AUTONOMIA PARA RESISTIR DE FORMA SUSTENTÁVEL”
Já a região de Coimbra tem registado uma dinâmica positiva no desenvolvimento de clusters estratégicos, particularmente focados em áreas de elevado valor acrescentado. «Coimbra apresenta-se como um pólo emergente, particularmente com destaque para os clusters de Tecnologia (TICE.PT), Saúde (Health Cluster Portugal), Espaço, Turismo e, muito recentemente, com as Indústrias Culturais e Criativas», explica Horácio Pina Prata, presidente da Direção da Associação Empresarial da Região de Coimbra (NERC).

HORÁCIO PINA PRATA, PRESIDENTE DA DIREÇÃO DA ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL DA REGIÃO DE COIMBRA (NERC): “OS CLUSTERS DESEMPENHAM UM PAPEL VITAL NA COMPETITIVIDADE E ECONOMIA NACIONAL”
Destaca ainda que a região evidencia uma excelente ligação entre as universidades – designadamente a Universidade de Coimbra, Instituto Politécnico de Coimbra e Incubadoras (CETEC, Lufapo, StartUP TEQ IPN, Inopol, etc.) – e o tecido empresarial.
Em termos de dimensão nacional, a Região Centro representa cerca de 19% da economia portuguesa, o que mostra a importância deste território. «No entanto, é crucial reconhecer que o potencial ainda não está totalmente explorado», sublinha, explicando que Coimbra possui 149 unidades de I&D e infra-estruturas de qualidade, como a AEMITEQ para as áreas da Farmacêutica, Química e Ambiental e novas áreas como a Canábis Medicinal, entre outras, além do iParque e o Parque Industrial de Taveiro, que servem de suporte a este desenvolvimento.
Ainda assim, comparativamente aos clusters de Lisboa e do Norte, considera que a região de Coimbra tem capacidade para crescer exponencialmente, «mas é preciso resiliência e mobilização de factores de centralidade», destaca o empresário da Cidade dos Estudantes.
ATRAIR INVESTIMENTO
Os clusters regionais desempenham um papel absolutamente vital na atracção de investimento. A nível nacional, existe reconhecimento oficial do Governo e do IAPMEI de que os clusters são essenciais para a competitividade e para a economia nacional, especialmente na transição para a neutralidade climática e liderança digital.
«Na Região de Coimbra, os potenciais clusters funcionam como catalisadores. Fomentam a colaboração entre empresas, universidades e instituições de investigação, reduzindo custos de transacção e permitindo que as PME (que constituem a maioria do nosso tecido) acedam a conhecimento especializado que de outro modo não poderiam alcançar. As empresas integradas em clusters tendem a ser mais inovadoras, o que reforça o posicionamento competitivo», afirma Horácio Pina Prata.
Em termos de emprego, a associação de Coimbra destaca que os clusters criam oportunidades de emprego qualificado. Os parques empresariais e centros de inovação de Coimbra acolhem empresas que geram postos de trabalho directos e indirectos, contribuindo para a retenção de talento na região. Adicionalmente, os clusters desempenham um papel activo na internacionalização, acelerando a transição digital e construindo resiliência para enfrentar desafios de forma sustentável.
Luís Realista corrobora esta visão, destacando que os clusters associados a pacotes de financiamento regionais para fixação de cadeias de valor são essenciais para «ligar o país e as regiões à sociedade do conhecimento inter-estados num conceito supranacional».
«Com estas correntes será mais fácil evidenciar o óbvio, pois está estruturada a lógica e a regra de funcionamento dos ecossistemas de valor acrescentado, da facilitação legislativa, da capacitação de profissionais e da estabilidade temporal das tendências», destaca o director da AISET.
Já Ramiro Brito considera que o papel destes clusters poderia ser muito importante, na medida em que criariam condições favoráveis para a fixação de determinadas actividades económicas em locais específicos, tendo em conta factores como a mobilidade de produtos e laboral, especificidades geoeconómicas, tipologia da oferta de mão-de-obra e complementaridade das próprias actividades, chegando mesmo a possibilitar cadeias de produção end to end numa só região. “Isto seria determinante na captação de investimento, bem como no aumento da nossa competitividade e produtividade”, destaca.
ENTRAVES
Apesar do potencial evidente dos business clusters para impulsionar a inovação e a competitividade, a sua implementação e consolidação enfrentam diversos obstáculos. Desde barreiras regulamentares e burocráticas à dificuldade em atrair talento especializado, passando pela limitação de financiamento e pela resistência cultural à colaboração entre empresas, estes desafios podem comprometer o pleno aproveitamento das sinergias que um cluster oferece.
Para o empresário do Minho, o maior obstáculo é a “visão municipalizada da economia local”. “Cada município quer ter as suas próprias indústrias, sem grande visão estratégica da região onde está inserido, refém dos ciclos políticos, na maior parte das vezes orientado para a visão minifundiária da economia, limitada pelas fronteiras de cada concelho”.
Por outro lado, considera ainda, “não há uma estratégia nacional na economia, que tenha aqui um papel orientador e macro que ultrapasse esta limitação”.
Para Luís Realista, “a principal limitação está relacionada com o desrespeito pela continuidade das políticas que os suportam. Um exemplo disso é a actual ameaça que os colabs enfrentam após a sua constituição e funcionamento, devido à falta de compromisso temporal nas políticas de agregação e de apoio a ecossistemas, que precisam de maturidade e autonomia para resistir de forma sustentável”.
Já a NERC identifica vários desafios estruturais:
Obstáculos financeiros e de infra-estrutura: Embora existam programas de apoio (Centro 2030 com 2,2 mil milhões de euros, COMPETE 2030), o acesso aos fundos europeus é frequentemente complexo e moroso para as PME. Os procedimentos burocráticos constituem uma barreira significativa ao crescimento.
Défices de conectividade territorial: Coimbra ainda sofre de limitações em termos de acessibilidades. A rede ferroviária necessita de modernização e electrificação urgente. As acessibilidades aos parques empresariais devem ser melhoradas para atrair empresas e investimento externo. Isto afecta directamente a competitividade dos clusters.
Capacidade de recursos humanos especializados: A fuga de talento para Lisboa permanece um desafio. Embora a região possua excelentes instituições de ensino, muitos diplomados deslocam-se para a capital, afectando a capacidade de retenção de empresas de base tecnológica.
Escala reduzida comparativa: Os clusters regionais enfrentam economias de escala reduzidas face aos grandes centros. Isto coloca desafios significativos em áreas como a internacionalização e a captação de investimento estrangeiro.
Fragmentação e falta de visibilidade: Ainda existe pouca consciência da oferta de oportunidades em Coimbra ao nível nacional e internacional.
Compreender estes entraves é essencial para desenvolver estratégias que permitam às empresas e regiões tirar o máximo proveito deste modelo de cooperação.
POLÍTICAS PÚBLICAS
O fortalecimento dos business clusters depende, em grande medida, de um enquadramento de políticas públicas eficaz e de medidas estratégicas que incentivem a cooperação entre empresas. Desde programas de apoio financeiro e incentivos fiscais até iniciativas de capacitação de recursos humanos e de promoção de inovação, o papel do Estado e das entidades regionais é fundamental para criar um ambiente favorável à criação e à expansão destes agrupamentos.
Na visão de Ramiro Brito, é fundamental em primeira instância «haver uma estratégia nacional assumida sobre a organização económica do país», destacando ainda que «essa estratégia não se pode concentrar em Lisboa e no Porto que são, tipicamente, regiões consumidoras e não produtoras».
Em termos de materialização da estratégia, considera que ela tem de ter em conta as características de cada região em termos demográficos, energéticos, de recursos naturais e de mobilidade aquando da definição da tipologia de clusters a estabelecer em cada uma delas. «Pode e deve também ser usado como um factor de redefinição ou reequilíbrio demográfico, potenciando regiões tradicionalmente menos procuradas, que têm potencial para fixação de determinadas indústrias, promovendo a atracção de investimento para esses locais».
Ou seja, para o empresário, tudo isto se resume a criar um plano nacional, com visão e sensibilidade regional. Toda a rede de incentivos, sejam eles fiscais, sejam de financiamento, tem depois de ter correspondência nessa estratégia.
No caso da Associação Empresarial da Região de Coimbra, defendem um conjunto de políticas com carácter prioritário:
A. Financiamento simplificado e acesso facilitado: Simplificar significativamente os procedimentos de acesso aos fundos do Portugal 2030 e COMPETE 2030. As PME regionais precisam de processos mais ágeis. Reforçar o apoio através de Pactos Sectoriais com compromissos entre Governo e clusters.
B. Investimento em infra-estruturas e conectividade: Prioritário é a conclusão da rede ferroviária moderna (electrificação de linhas regionais), melhoria das acessibilidades rodoviárias aos parques empresariais e reforço de conectividade digital (5G, banda larga em toda a região).
C. Políticas de fixação de talento: Incentivar a retenção de diplomados através de apoios fiscais a empresas que recrutem localmente e programas de desenvolvimento de carreira em sectores emergentes.
D. Internacionalização estratégica: Apoiar a participação de empresas de clusters em redes internacionais, feiras comerciais e projectos de inovação europeus. Os avisos de internacionalização e clusters no âmbito do COMPETE 2030 constituem oportunidades para operações em conjunto de PME que visem prospecção e presença em mercados internacionais.
E. Governança de clusters reforçada: Consolidar mecanismos de coordenação entre instituições públicas, universidades, entidades gestoras de clusters e associações empresariais como a NERC. A colaboração inter-clusters é fundamental para criar sinergias.
F. Políticas de transição verde Aligned: Os clusters devem ser suportados em projectos de descarbonização, economia circular e sustentabilidade, alinhados com as prioridades da UE e com a RIS3 do Centro (que dá prioridade a “soluções industriais sustentáveis para descarbonização”).
G. Reconhecimento institucional: Defender junto das autoridades que os clusters regionais sejam considerados actores estratégicos no desenvolvimento nacional, com garantia de financiamento estrutural multianual.
FUTURO
«Os clusters orientados e estratégicos, por sector de actividade, têm de ser uma aposta nacional, de todos e onde todos se comprometam», diz Ramiro Brito, com firmeza.
O representante dos patrões do Minho considera que, se assim for, vamos ter regiões a potenciar melhor as suas vantagens e a não desperdiçar energias em áreas para as quais não têm a menor capacidade competitiva. Por outro lado, considera que veremos uma redefinição da indústria que terá maior capacidade de resposta para crescer, escalar e ganhar dimensão. «As regiões terão matriz económica assumida, estratégica e isso será um factor indissociável de desenvolvimento económico e social».
Mais a Sul, em Setúbal, Luís Realista destaca que «por diferentes áreas e motivações, os clusters podem ter mais
ou menos futuro», considerando que, actualmente, «a maior oportunidade está nos clusters da saúde e da defesa, enquanto os da economia circular ficam para trás, devido à actuação do Estado como regulador, que se tem limitado a pagar multas pelo não cumprimento de metas»
Por sua vez, na região Centro, Horácio Pina Prata considera que, nos próximos 5-10 anos, os clusters regionais deverão consolidar-se como actores centrais na economia portuguesa. «Os clusters desempenham um papel vital na competitividade e economia nacional, especialmente na transição para a neutralidade climática e liderança digital».
Em Coimbra, os clusters empresariais enfrentam um futuro de consolidação e expansão, com destaque para as áreas de Tecnologia, Saúde e Turismo, que apresentam potencial para ganhar dimensão e relevância internacional. A região Centro deverá apostar no desenvolvimento de novas especializações, incluindo soluções industriais sustentáveis para descarbonização, economia circular e valorização de recursos endógenos, colocando como prioridade o capital humano e a fixação de talento. Paralelamente, as empresas integradas nos clusters são incentivadas a reforçar a sua internacionalização, aumentando a capacidade de participação em cadeias de valor globais. O fortalecimento da ligação entre academia e empresas mantém-se essencial, garantindo a transferência contínua de tecnologia e conhecimento.
«No contexto nacional, esperamos que os clusters regionais contribuam para reequilibrar o mapa económico do país, reduzindo a concentração em Lisboa, e consolidando Portugal regionalizado como um destino de inovação e investimento», remata.
Este artigo foi publicado na edição de Março (n.º 240) da Executive Digest.






