Comer salsichas é tão cancerígeno como fumar? Mitos e verdades sobre carnes processadas

A relação entre carne processada e cancro tem sido frequentemente alvo de alarmismo nas redes sociais, com mensagens que comparam o consumo de salsichas ou bacon ao tabagismo.

Pedro Zagacho Gonçalves

A relação entre carne processada e cancro tem sido frequentemente alvo de alarmismo nas redes sociais, com mensagens que comparam o consumo de salsichas ou bacon ao tabagismo. No entanto, a realidade científica é mais complexa e exige distinguir entre risco real, interpretações erradas e evidência epidemiológica consolidada.

Segundo o especialista em nutrição Miguel Ángel Lurueña, vivemos numa “era de mensagens impactantes”, onde “há competições por ver quem solta a barbaridade mais grande para chamar a nossa atenção”. Essa dinâmica contribui para leituras simplistas que não refletem o consenso científico.

Em 2015, a Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC), organismo da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou a carne processada como cancerígena para humanos e a carne vermelha como provavelmente cancerígena. Esta conclusão não surgiu de um único estudo, mas da análise de décadas de investigação sobre a associação entre consumo destes alimentos e cancro colorretal.

A IARC enquadrou a carne processada no grupo 1 de substâncias carcinogénicas, o mesmo onde estão o tabaco e o amianto. No entanto, esta classificação gerou confusão, levando alguns meios de comunicação a afirmar que comer salsichas é tão cancerígeno como fumar, algo que os especialistas consideram uma interpretação errada.

O ponto essencial, sublinhado pelos investigadores, é que a IARC não mede o nível de perigo, mas sim o grau de evidência científica da associação com o cancro. Ou seja, significa que existe prova suficiente de que tanto o tabaco como a carne processada podem aumentar o risco de cancro, mas não que o impacto seja equivalente.

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A própria IARC define carne processada como carne que foi transformada através de salga, cura, fermentação, fumagem ou outros processos destinados a melhorar o sabor ou conservação. Inclui produtos como salsichas, fiambre, chouriço, morcela, salame ou presunto, entre outros.

Do ponto de vista do risco, a diferença entre tabaco e carne processada é substancial. A IARC estima que o consumo diário de cerca de 50 gramas de carne processada — equivalente a uma salsicha — aumenta o risco de cancro colorretal em cerca de 18%. No entanto, este valor corresponde a risco relativo, e não absoluto.

Em termos práticos, se o risco médio de cancro colorretal numa população como a espanhola se situa entre 4% e 5%, o consumo diário de carne processada poderia elevar esse valor para cerca de 5% a 6%. Já no caso do tabaco, o impacto é muito mais expressivo: o risco de cancro do pulmão pode passar de cerca de 1% para valores próximos de 20%.

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Apesar desta diferença, a carne processada não é inofensiva. Estima-se que esteja associada a cerca de 34 mil mortes por cancro por ano em todo o mundo, enquanto o tabaco causa cerca de um milhão de mortes anuais.

O cancro colorretal, em particular, é um dos mais comuns em países como Espanha, com cerca de 40 mil novos casos anuais e aproximadamente 15 mil mortes registadas num único ano, o que reforça a relevância do tema.

A ligação entre carne processada e cancro baseia-se sobretudo em estudos observacionais, que analisam hábitos alimentares de grandes populações e a incidência de doença. Estes estudos mostram uma relação consistente e dose-resposta: quanto maior o consumo, maior o risco.

Embora não exista um único mecanismo comprovado, várias hipóteses científicas ajudam a explicar esta associação. Uma delas envolve os nitritos usados como conservantes, que podem originar nitrosaminas potencialmente carcinogénicas. No entanto, os especialistas sublinham que estes aditivos também têm funções importantes na segurança alimentar, como a prevenção de bactérias perigosas.

Outra hipótese aponta para o ferro presente na carne vermelha, que pode favorecer danos no ADN. Também são considerados os compostos formados durante a confeção a altas temperaturas, como aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos.

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Além disso, investiga-se o papel da microbiota intestinal, fatores genéticos e até o impacto indireto da dieta, já que o consumo elevado de carne pode substituir alimentos protetores como frutas, legumes e verduras.

Apesar destas teorias, a ciência ainda não identificou uma causa única e definitiva. O consenso atual é que a carne processada aumenta o risco de cancro colorretal, embora os mecanismos exatos permaneçam parcialmente por esclarecer.

Face a esta evidência, os especialistas defendem uma abordagem equilibrada. Não se trata de eliminar totalmente estes alimentos, mas de reduzir o seu consumo e integrá-los num padrão alimentar saudável.

As recomendações passam por evitar o tabaco e o álcool, manter atividade física regular e privilegiar uma alimentação baseada em alimentos frescos ou minimamente processados, sobretudo de origem vegetal, como frutas, legumes e leguminosas, complementados com peixe e ovos.

Assim, comer ocasionalmente salsichas ou fiambre não representa, por si só, um risco elevado. O problema surge quando estes produtos fazem parte da dieta diária e habitual, aumentando progressivamente a probabilidade de desenvolvimento de doença ao longo da vida.

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