Os pagamentos em atraso estão a transformar-se num travão cada vez mais pesado ao crescimento das empresas europeias e Portugal não escapa à tendência. O novo ‘European Payment Report 2026’, divulgado pela Intrum, mostra que a proporção de receitas recebidas fora de prazo já atingiu níveis considerados insustentáveis, num momento em que as empresas continuam pressionadas por um contexto de incerteza económica.
De acordo com o relatório, as empresas na Europa recebem com atraso mais de 12% das suas receitas, acima do limiar que consideram gerível sem perturbações operacionais. Em Portugal, o cenário também inspira cautela: cerca de 10,27% das receitas são recebidas fora do prazo, igualmente acima do nível tido como sustentável.
O impacto já está longe de ser apenas administrativo ou financeiro. Mais de metade das empresas europeias admite que os atrasos nos pagamentos contribuíram para o falhanço de objetivos de crescimento, o que evidencia o peso que este problema está a ter na atividade diária e nas ambições de expansão.
O dado ganha ainda mais relevância num ano em que 64% das empresas apontam o crescimento como principal prioridade para 2026, o valor mais elevado dos últimos cinco anos. Depois de vários anos marcados por uma lógica de resistência e sobrevivência, muitas empresas querem agora acelerar. O problema é que continuam a fazê-lo com a tesouraria sob pressão.
Efeito dominó alastra às cadeias de abastecimento
O estudo mostra que os atrasos nos pagamentos estão a gerar um efeito em cadeia nas relações empresariais. Na Europa, 62% das empresas dizem que pagar com atraso aos seus próprios fornecedores é uma consequência direta de receberem tarde dos seus clientes.
Em Portugal, o retrato é semelhante. Seis em cada dez empresas admitem que também atrasam os pagamentos aos fornecedores por causa dos recebimentos tardios, num sinal claro de que o problema se propaga ao longo das cadeias de abastecimento e deixa de ser um incidente isolado para passar a ter uma natureza sistémica.
A pressão também se reflete no chamado ‘gap’ de pagamento, ou seja, na diferença entre o prazo acordado e o momento efetivo em que o pagamento entra. No segmento B2B, esse diferencial agravou-se de 16 dias em 2023 para 20 dias este ano, uma evolução que reforça a ideia de deterioração do comportamento de pagamento entre empresas.
Além disso, mais de metade das empresas acredita que o risco de atrasos ou de incumprimento irá aumentar nos próximos 12 meses, refletindo a persistência da incerteza económica e da pressão financeira.
Empresas apertam controlo e recorrem mais à inteligência artificial
Perante este agravamento, as empresas estão a reagir com medidas mais apertadas. Seis em cada dez afirmam estar a reforçar a disciplina de pagamento, o valor mais elevado dos últimos seis anos. Ao mesmo tempo, cresce o recurso a mecanismos de prevenção e controlo, como o pré-pagamento, as avaliações de risco de crédito e as medidas antifraude.
O relatório mostra também uma maior aposta na tecnologia. Atualmente, 66% das empresas já recorrem à inteligência artificial nos processos de pagamento, acima dos 59% registados em 2025. Entre os principais benefícios apontados está o ganho de eficiência, referido por 23% das empresas.
Ainda assim, a adoção permanece desigual. Mais de metade das empresas reconhece não ter ainda as competências necessárias para aproveitar plenamente o potencial desta tecnologia, o que sugere que a digitalização da gestão de pagamentos continua a avançar a diferentes velocidades.
“Já não é apenas um desafio de liquidez”
Citado no relatório, o presidente e CEO da Intrum, Johan Åkerblom, sublinha que os pagamentos em atraso deixaram de ser apenas um problema de gestão de liquidez e passaram a afetar a estabilidade operacional e a capacidade de crescimento das empresas.
O responsável destaca, no entanto, que muitas organizações estão a reagir, reforçando a disciplina de pagamento, apertando as avaliações de crédito e explorando novas formas de gerir o risco. Nesse processo, a tecnologia e, em particular, a inteligência artificial, estão a ganhar um papel cada vez mais central no reforço da resiliência financeira.
Também Anna Zabrodzka-Averianov, economista sénior da Intrum, defende que o comportamento de pagamento se está a tornar num indicador cada vez mais relevante da estabilidade empresarial. A economista alerta para um ciclo vicioso: quem tem dificuldade em receber acaba, por sua vez, por pagar mais tarde, agravando o problema ao longo das cadeias de abastecimento e prejudicando a economia no seu conjunto.
Um retrato europeu com sinais de alerta
A 29ª edição do European Payment Report baseia-se nas respostas de 8.385 empresas em 20 países europeus e traça um retrato detalhado sobre gestão de pagamentos, risco financeiro e perceções empresariais num contexto de incerteza prolongada.
Entre as principais conclusões, o estudo aponta que 57% das empresas falharam objetivos de crescimento devido a pagamentos em atraso, 53% antecipam uma subida dos atrasos ou incumprimentos nos próximos 12 meses e 64% continuam, ainda assim, a colocar o crescimento no topo das prioridades.



