No dia do fim da moratória extraordinária criada para proteger famílias e empresas afetadas pelo mau tempo, o sistema financeiro português prepara-se para um momento crítico de avaliação do risco de crédito associado às tempestades que atingiram o país no início do ano.
A medida, que termina esta segunda-feira, envolve cerca de 7.400 clientes e um volume total de crédito na ordem dos 930 milhões de euros, segundo dados avançados pelo Banco de Portugal.
As moratórias bancárias foram implementadas para dar resposta às consequências económicas das tempestades que afetaram várias regiões do país, tendo sido declarada situação de calamidade em quase uma centena de concelhos.
De acordo com a vice-governadora do Banco de Portugal, Clara Raposo, a adesão total inclui 7.400 empresas e famílias, com impacto em diferentes segmentos de crédito.
Os valores correspondem a menos de 1,5% do crédito à habitação e a cerca de 4% do crédito às empresas nas zonas afetadas, sublinhou a responsável durante uma audição parlamentar na Comissão do Orçamento, Finanças e Administração Pública.
Banco de Portugal considera prematuro avaliar risco de crédito
Apesar da dimensão do programa, o Banco de Portugal considera que ainda não é possível tirar conclusões definitivas sobre o impacto real das moratórias no risco de incumprimento.
Clara Raposo foi clara ao afirmar que, enquanto a medida estiver em vigor, “não é possível tirar conclusões robustas” sobre a eventual materialização do risco de crédito.
A responsável acrescentou ainda que os efeitos económicos das tempestades não são imediatos, salientando que “tendem a manifestar-se por mais tempo”, o que prolonga a incerteza sobre o impacto real na economia.
Segundo as estimativas apresentadas, as perdas associadas às tempestades ultrapassam os cinco mil milhões de euros, mas apenas cerca de 750 milhões estão cobertos por seguros. Isto significa que aproximadamente 80% das perdas recaem diretamente sobre famílias e empresas.
Crédito sob moratória tinha já sinais de maior risco
Os dados analisados pelo Banco de Portugal indicam que as famílias e empresas que recorreram às moratórias já apresentavam, antes das tempestades, indicadores de risco “ligeiramente” piores do que a média nacional.
Ainda assim, a vice-governadora recusou pronunciar-se sobre a possibilidade de prolongamento da medida, deixando em aberto a evolução futura do enquadramento.
Banco de Portugal não deteta irregularidades na banca
Além das moratórias, o Governo avançou com linhas de crédito com garantia pública através do Banco Português de Fomento, com o objetivo de apoiar a recuperação das zonas afetadas.
Neste contexto, surgiram dúvidas no Parlamento sobre a possibilidade de alguns bancos estarem a “reciclar” crédito de má qualidade, substituindo-o por novo financiamento garantido pelo Estado.
Clara Raposo rejeitou essa hipótese, garantindo que o Banco de Portugal “não tem qualquer indicação de comportamento anormal” por parte das instituições financeiras.
“Não detetamos qualquer comportamento anormal, estranho e que nos alertasse para algo estranho, mas continuaremos a acompanhar”, afirmou, sublinhando que a informação disponível ainda é “muitíssimo preliminar”.
Na mesma linha, reforçou perante os deputados: “Não temos nenhum sinal especial de alerta”.
Sistema bancário mostra resiliência perante impacto das tempestades
Sobre o impacto mais amplo das tempestades no sistema bancário, a vice-governadora assegurou que as instituições financeiras têm demonstrado capacidade de adaptação.
“As instituições estão a saber lidar de forma tranquila”, afirmou, sublinhando que o setor se mantém estável apesar do contexto de maior pressão económica.
Com o fim da moratória agora a entrar em vigor, bancos, reguladores e Governo passam a enfrentar a fase mais sensível: a avaliação real do impacto das tempestades na capacidade de pagamento de famílias e empresas.













