Durante anos, o debate sobre inteligência artificial centrou-se nos empregos administrativos, funções repetitivas ou tarefas técnicas de entrada. Mas a nova frente de risco pode surpreender: a IA está a subir na hierarquia e começa a ameaçar cargos de chefia intermédia.
Segundo o ‘El Economista’, cresce entre empresas tecnológicas a convicção de que muitos níveis de gestão intermédia poderão deixar de ser necessários, à medida que sistemas de inteligência artificial passam a coordenar equipas, distribuir tarefas e acompanhar resultados.
O alvo já não é só a base da empresa
A mensagem que sai do Silicon Valley é clara: um nível permanente de gestão intermédia pode tornar-se dispensável.
Em vez de supervisores, coordenadores e gestores dedicados a reuniões, alinhamentos internos e controlo operacional, várias empresas defendem modelos em que a IA assume essas funções de organização.
Isto inclui processos como definição de prioridades, circulação de informação, monitorização de desempenho e articulação entre equipas.
Empresas já começaram a cortar
O fenómeno já não está apenas no campo teórico.
Grandes tecnológicas como Amazon, Meta e Oracle anunciaram vagas de despedimentos associadas à automação e à procura de maior eficiência operacional.
Mas um dos exemplos mais simbólicos foi Jack Dorsey, cofundador do Twitter e líder da Block, empresa de pagamentos digitais.
Dorsey anunciou o despedimento de 4.000 trabalhadores, cerca de 40% da força laboral, defendendo que parte do trabalho pode ser substituído por inteligência artificial.
Novo modelo elimina gestores intermédios
Num texto conjunto com Roelof Botha, ex-dirigente da Sequoia Capital, Dorsey questiona o modelo clássico de empresa hierárquica.
A proposta passa por três níveis principais.
O primeiro seriam colaboradores especializados em tarefas concretas, orientados diretamente por sistemas de IA.
O segundo seriam responsáveis por projetos ou problemas específicos.
O terceiro seriam os chamados “jogadores-treinadores”, profissionais que acumulam produção e liderança de equipas, substituindo o gestor intermédio tradicional.
Toda a coordenação geral seria feita por sistemas inteligentes.
No topo ficam CEO e liderança estratégica
Neste modelo, o topo da empresa mantém-se.
CEO e direção continuam a tomar decisões estratégicas, mas com informação mais rápida, organizada e tratada por IA.
Ou seja, a tecnologia não elimina toda a chefia — elimina sobretudo os níveis intermédios entre base operacional e administração.
Porque isto preocupa o mercado de trabalho
Os gestores intermédios representam uma fatia relevante do emprego qualificado em muitas economias.
Além de funções de supervisão, são tradicionalmente a principal ponte para progressão de carreira dentro das empresas.
Se desaparecerem, milhares de profissionais poderão enfrentar requalificação, despromoção salarial ou bloqueio na ascensão interna.
O futuro pode chegar depressa
Dorsey admite que o modelo ainda está numa fase inicial. Mas o ritmo acelerado da IA faz crescer a convicção de que estas mudanças podem espalhar-se rapidamente do setor tecnológico para banca, indústria, retalho e serviços.
Durante anos perguntou-se se a IA tiraria empregos aos trabalhadores de base.
Agora surge outra pergunta: e se começar pelos chefes?










