Trump perde terreno em grande parte do mundo: como a guerra com o Irão está a abalar imagem dos EUA

Cabos diplomáticos obtidos pelo ‘POLITICO’ descrevem preocupação crescente entre diplomatas americanos destacados no estrangeiro

Francisco Laranjeira

A guerra com o Irão está a provocar danos profundos na posição internacional dos Estados Unidos, com aliados históricos a questionarem Washington e o sentimento antiamericano a ganhar força em vários países de maioria muçulmana. A revelação surge através de cabos diplomáticos obtidos pelo ‘POLITICO’, que descrevem preocupação crescente entre diplomatas americanos destacados no estrangeiro.

Os documentos, enviados na passada quarta-feira, analisam o impacto do conflito em três países estratégicos: Bahrain, Azerbaijão e Indonésia. Em comum, surge a ideia de que os EUA estão a perder influência pública e política, enquanto redes pró-iranianas ocupam o espaço digital com rapidez e eficácia.

No Bahrain, parceiro central de Washington no Golfo e sede da Quinta Frota da Marinha americana, multiplicam-se críticas de que os EUA terão privilegiado a proteção de Israel, deixando Manama exposta a drones e mísseis iranianos. O ‘POLITICO’ refere que circularam mensagens nas redes sociais acusando a presença militar americana de transformar o país num alvo.

Diplomatas admitem ainda que a comunicação americana falhou. Enquanto Londres manteve uma presença ativa nas redes sociais, a embaixada britânica acabou por criar a perceção de que o Reino Unido estava a intervir onde os Estados Unidos recuavam.

No Azerbaijão, país de maioria muçulmana e geopoliticamente sensível entre Rússia, Turquia e Irão, o conflito travou a melhoria das relações com Washington que vinha sendo registada desde a cimeira de paz entre Azerbaijão e Arménia promovida por Donald Trump no verão passado.

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Depois de uma fase inicial mais neutra, os media azeris tornaram-se mais críticos em abril. Vários órgãos de comunicação passaram a culpar os Estados Unidos e Israel pelo início da guerra e pela ausência de uma estratégia clara para terminar o conflito.

Ainda assim, os diplomatas sublinham que a hostilidade aos EUA não significa aproximação popular ao regime iraniano, visto que grande parte da sociedade azeri mantém uma visão secular e distante de Teerão.

Já na Indonésia, a maior democracia muçulmana do mundo, os alertas são especialmente sérios. O ‘POLITICO’ escreve que Teerão lançou uma operação de influência assente em Telegram, Facebook e meios tradicionais, explorando sentimentos anti-coloniais e apelando à solidariedade islâmica.

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Os diplomatas americanos receiam que o aumento do sentimento antiamericano reduza a margem política do presidente Prabowo Subianto para manter cooperação militar e estratégica com Washington. Isso acontece precisamente numa fase em que Jacarta procurava estreitar relações com os EUA.

Os cabos revelam também frustração interna dentro da diplomacia americana. Embaixadas terão sido instruídas a não produzir conteúdos próprios sobre a guerra, limitando-se a republicar mensagens aprovadas pela Casa Branca ou pelo Departamento de Estado.

Esse controlo centralizado, somado ao receio de represálias dentro da Administração Trump, estará a travar respostas rápidas à propaganda adversária. O resultado, segundo os próprios diplomatas, é que os Estados Unidos estão a perder a batalha da narrativa num momento crítico.

Apesar de a Administração Trump defender que a ofensiva tornou o mundo mais seguro ao impedir o Irão de obter arma nuclear, os relatórios diplomáticos apontam noutra direção: a guerra pode estar a custar aos EUA algo difícil de recuperar — confiança, influência e credibilidade global.

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