Por João Lampreia, especialista de mercado na Freedom24
A descida dos preços do petróleo não está a traduzir-se num alívio imediato para as companhias aéreas. O fator determinante para o setor não é tanto o preço do Brent ou do WTI, mas sim o custo do combustível de aviação — que, regra geral, ajusta em baixa de forma mais lenta.
Desde o início de 2026, muitas transportadoras enfrentam uma forte pressão nos custos, com margens comprimidas, tarifas mais elevadas e cortes de rotas. Ainda assim, o impacto da crise é tudo menos uniforme: enquanto algumas empresas mostram resiliência graças a estratégias eficazes de cobertura, frotas mais eficientes e maior poder de fixação de preços, outras permanecem particularmente expostas.
Porque é que a descida do petróleo não traz alívio imediato
O erro mais comum na leitura do mercado é focar-se exclusivamente no preço do crude. Para as companhias aéreas, o elemento crítico é o combustível de aviação, cujo preço tende a reagir de forma mais intensa e prolongada, refletindo constrangimentos ao nível da refinação, logística e capacidade instalada.
Dados do setor indicam que o combustível de aviação passou de cerca de 85–90 dólares por barril, em fevereiro, para mais de 200 dólares no início de abril. A Delta Air Lines estima pagar mais de 4,30 dólares por galão no segundo trimestre — cerca do dobro face ao período homólogo. Este desfasamento resulta não apenas da valorização da matéria-prima, mas também da escassez de produtos refinados.
O impacto é significativo: o combustível representa, em condições normais, cerca de 25–30% dos custos operacionais, podendo atingir 40% nas companhias low-cost e em rotas de longo curso.
Mesmo que o petróleo estabilize, os preços do combustível de aviação poderão manter-se elevados durante vários meses. O diretor-geral da IATA, Willie Walsh, já alertou que a recuperação da oferta será mais lenta do que no mercado de crude, devido a danos em infraestruturas de refinação no Médio Oriente. O resultado poderá ser um cenário em que o Brent recua abaixo dos 100 dólares, mas os custos efetivos das companhias permanecem anormalmente elevados.
Quem está melhor posicionado
As companhias que recorrem a instrumentos de cobertura — como futuros e opções — conseguem amortecer melhor estes choques.
Na Europa, a exposição tem sido significativamente menor. Segundo dados do setor, as transportadoras europeias asseguraram, em média, cerca de 80% das suas necessidades de combustível para 2026. A easyJet fixou 84% para o primeiro semestre, a Ryanair 84% no mesmo período e 62% no segundo, enquanto a Lufthansa ronda os 82%.
A Ryanair destaca-se como um caso paradigmático. O seu modelo assenta num controlo rigoroso de custos, numa política ativa de cobertura e em elevadas taxas de ocupação. Para já, a empresa não antecipa pressões significativas sobre tarifas, prevendo apenas aumentos moderados. Ainda assim, admite que um cenário prolongado de disrupção poderá implicar uma redução de 10–20% no abastecimento de combustível durante o verão.
Também a easyJet, a Deutsche Lufthansa e a International Airlines Group beneficiam de níveis elevados de cobertura, o que lhes permite ganhar tempo — adiando a necessidade de repercutir integralmente os custos nos passageiros e protegendo margens por mais tempo.
Contudo, esta proteção é temporária. À medida que os contratos expiram ao longo de 2026, a pressão sobre a rentabilidade tenderá a intensificar-se.
Poder de fixação de preços
As companhias com maior exposição ao segmento premium dispõem de maior flexibilidade para transferir custos.
A Delta Air Lines, a United Airlines e a American Airlines já começaram a ajustar preços, incluindo taxas de bagagem e sobretaxas de combustível. A menor sensibilidade ao preço por parte de clientes corporativos e passageiros premium permite preservar margens com maior eficácia.
A Delta beneficia ainda de uma vantagem estrutural: a sua refinaria na Pensilvânia. A empresa estima que este ativo compense cerca de 300 milhões de dólares no segundo trimestre, face a um aumento global da fatura de combustível de cerca de 2 mil milhões. Embora insuficiente para anular o impacto, este fator reforça a sua posição relativa no mercado norte-americano.
Eficiência da frota
A idade e eficiência da frota assumem particular relevância neste contexto.
Modelos mais recentes, como o Airbus A320neo, A321neo ou o Boeing 737 MAX, permitem reduções de consumo na ordem dos 15–20%. A Ryanair, por exemplo, continua a investir na renovação da frota com 737 MAX equipados com motores LEAP-1B, que proporcionam ganhos de eficiência próximos de 20%.
Por contraste, operadores com frotas mais antigas enfrentam uma tripla desvantagem: maior consumo, custos de manutenção mais elevados e menor capacidade de absorver choques nos custos.
Onde estão os maiores riscos
As companhias low-cost sem cobertura significativa e com clientes altamente sensíveis ao preço encontram-se na posição mais vulnerável.
Nos Estados Unidos, o setor aparenta menor preparação. Dados recentes indicam que três das quatro maiores transportadoras abandonaram os seus programas de cobertura até ao final de 2024. Até a Southwest Airlines — historicamente uma referência nesta área — encerrou a sua estratégia.
Na prática, isto deixa grande parte do setor exposta aos preços spot. O Barclays estima custos adicionais de cerca de 280 milhões de dólares por semana para as principais companhias, caso os níveis atuais se mantenham — o que poderá traduzir-se em mais de 11 mil milhões de dólares ao longo de 2026.
As companhias ultra low-cost e operadores com estruturas financeiras mais frágeis enfrentam riscos acrescidos, dado o limitado poder de ajustamento de preços sem destruição de procura.
Implicações para investidores
No curto prazo, o setor da aviação mantém-se altamente sensível a choques energéticos.
Mesmo num cenário de queda do petróleo, a pressão sobre as companhias deverá persistir ao longo de vários trimestres, refletindo o custo elevado do combustível de aviação, margens de refinação ainda elevadas e uma recuperação lenta da capacidade industrial.
Empresas com cobertura robusta, frotas eficientes, exposição ao segmento premium e capacidade de ajustar preços surgem como as mais bem posicionadas.
Na Europa, destacam-se Ryanair, easyJet, Deutsche Lufthansa e International Airlines Group. Nos Estados Unidos, a Delta Air Lines aparenta maior resiliência, suportada pela sua estrutura integrada e posicionamento de mercado.
Já as companhias ultra low-cost e operadores sem cobertura permanecem mais expostos — sobretudo se as tensões no Médio Oriente se prolongarem.




