Portugal apresenta um retrato cada vez mais desigual, marcado por uma concentração de riqueza no topo e pela fragilização da maioria da população. Em 2024, apenas 107,5 mil pessoas, o equivalente a 1% dos residentes, concentravam 220,6 mil milhões de euros, quase um quarto de toda a riqueza das famílias. No extremo oposto, cerca de 5,4 milhões de pessoas, representando metade do país, repartiam entre si apenas 3,63% desse património, evidenciando um desequilíbrio estrutural que se aprofundou ao longo da última década.
Os dados da World Inequality Database, analisados pelo economista Eugénio Rosa para o Jornal de Notícias, mostram que os 10% mais ricos detinham, em 2024, mais de 529,9 mil milhões de euros. Entre 2011 e 2024, os 1% mais ricos aumentaram a sua riqueza em 82,1 mil milhões de euros e os 10% do topo acumularam mais 200,4 mil milhões, enquanto metade da população mais pobre viu o seu património crescer apenas 13,4 mil milhões. A disparidade revela que, enquanto o topo acumulou centenas de milhares de milhões de euros, a base da sociedade praticamente estagnou, ampliando uma desigualdade que já era elevada.
Eugénio Rosa enquadra esta evolução num contexto de instabilidade social e política, defendendo que “a deterioração das condições de vida da maioria da população, o aumento das desigualdades e a incerteza em relação ao seu futuro estão a contribuir para toda esta grave crise política e social”, considerando mesmo que este cenário ajuda a explicar o ressurgimento da extrema-direita. O economista aponta ainda fatores como guerras, sanções, fragmentação das cadeias de abastecimento e a incapacidade dos governos para inverter a trajetória de agravamento das desigualdades.
A fragilidade não se limita ao património. Em 2024, cerca de 66% dos trabalhadores, aproximadamente 3,9 milhões de pessoas, recebiam até 1000 euros brutos mensais, o que corresponde a cerca de 848 euros líquidos ou menos após descontos. Mais de um milhão acumulava dois empregos para conseguir suportar as despesas, num contexto em que trabalhar deixou de ser garantia de uma vida digna. A distribuição salarial é elucidativa: cerca de 195 mil trabalhadores auferiam até 600 euros, quase 289 mil entre 600 e 800 euros e mais de 3,4 milhões situavam-se entre 801 e 1000 euros brutos mensais, valores que, depois de impostos, se revelam insuficientes para cobrir encargos essenciais como habitação, alimentação, transportes e energia.
Para Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia do Porto, a classe média portuguesa enfrenta um processo de enfraquecimento profundo. “Classe média é um conceito omnipresente no discurso político e quase ausente na realidade económica portuguesa. Invocado em campanhas eleitorais, serve sobretudo para legitimar decisões que raramente a beneficiam”, afirma. O académico sustenta que este grupo está “estruturalmente fragilizado”, vítima de “decisões fragmentadas, promessas vazias e políticas públicas desenhadas sem pensar nos reais incentivos económicos”, apontando incoerências nas áreas da habitação e da saúde como exemplos de políticas incapazes de travar a escalada de preços ou de assegurar respostas eficazes no serviço público.
Na saúde, as mudanças sucessivas e a ausência de resultados consistentes têm levado cada vez mais portugueses a recorrer ao setor privado, sendo que cerca de 4 milhões dispõem atualmente de seguro de saúde, sinal de perda de confiança nos serviços públicos. Em paralelo, a classe média suporta uma parte significativa da carga fiscal. Como sublinha Óscar Afonso, “a classe média paga o grosso dos impostos, sofre com serviços públicos ineficientes e vê a sua capacidade de poupança esboroar-se”, acabando muitas vezes por pagar duas vezes por serviços essenciais, através dos impostos e de despesas privadas adicionais.
A estrutura salarial portuguesa, uma das mais comprimidas da União Europeia, agrava esta pressão: o salário mínimo aproxima-se do salário mediano e do salário médio, concentrando grande parte da população ativa em níveis de rendimento semelhantes. Em 2025, o salário mínimo nacional de 870 euros representava cerca de 65% do salário mediano, uma das proporções mais elevadas da zona euro. Apesar de ajustamentos recentes, os escalões intermédios do IRS continuam particularmente penalizados, com taxas marginais elevadas aplicadas a rendimentos que, no contexto europeu, não correspondem a níveis elevados de riqueza, acentuando o risco de fratura social num país onde a distância entre o topo e a base continua a aumentar.












