A escalada no Estreito de Ormuz está a empurrar novamente os preços da energia para níveis críticos e a comparação com a invasão do Kuwait, em 1990, começa a ganhar força entre analistas, num paralelismo que pode antecipar novos máximos no petróleo ainda este ano, avança o ‘El Economista’.
Após um mês e meio de conflito entre os Estados Unidos e o Irão, o comportamento do Brent está a seguir um padrão já conhecido dos mercados: subida rápida, tensão crescente e um possível pico em poucos meses. Especialistas admitem que o barril pode ultrapassar os 119,5 dólares (cerca de 110 euros) registados em março e até atingir os 150 dólares (cerca de 138 euros) em cenários mais extremos.
A leitura histórica é clara. “Do início de um conflito como o atual ou o de 1990 até o petróleo atingir o seu preço máximo passam-se, em média, dois a três meses”, explica o analista Juan Ignacio Crespo, apontando meados de maio como momento potencial para esse pico — caso o paralelismo com o Kuwait se confirme.
Em 1990, após a invasão do Kuwait pelo Iraque, o Brent quase duplicou em cerca de dois meses e meio. Já em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o mercado reagiu de forma mais curta e menos intensa, com o pico a surgir em apenas duas semanas e uma subida limitada a cerca de 35%. Agora, o cenário parece voltar a aproximar-se mais do padrão longo e explosivo dos anos 90.
O novo bloqueio ao Estreito de Ormuz e o colapso das negociações no fim de semana reforçaram este cenário. Vários bancos de investimento já admitem uma nova escalada acima dos 120 dólares (cerca de 110 euros), com instituições como o Société Générale a não excluírem picos pontuais nos 150 dólares, sobretudo se coincidirem com o esgotamento das reservas estratégicas usadas para travar a escassez global.
O consenso de mercado aponta para um segundo trimestre de 2026 particularmente pressionado. As previsões variam entre os 107 dólares (cerca de 98 euros) por barril, segundo o Rabobank, e os 125 dólares (cerca de 115 euros) projetados pelo Intesa Sanpaolo, com média global próxima dos 97,1 dólares (cerca de 89 euros). Ainda assim, a partir do terceiro trimestre, espera-se algum alívio, com uma queda média de cerca de 11%.
O mesmo padrão repete-se no gás natural europeu. Os contratos TTF deverão atingir um pico médio de 49,3 euros por MWh no segundo trimestre, descendo depois para 45,3 euros no verão, refletindo a expectativa de estabilização — ainda que em níveis elevados.
Apesar da pressão, os analistas não antecipam um cenário semelhante à crise energética dos anos 70. O entendimento dominante é que o mercado pode estar próximo de um pico temporário. “Continuamos a acreditar que os preços do petróleo e do gás estão no pico, ainda que temporário, de uma forte recuperação”, afirma Norbert Rücker, do Julius Baer.
Ainda assim, mesmo que haja uma correção posterior, dificilmente os preços regressarão aos níveis anteriores ao início do conflito. A incerteza geopolítica continuará a sustentar um prémio de risco elevado, sobretudo enquanto não houver um cessar-fogo definitivo.
Mais adiante, o ‘El Economista’ sublinha que o cenário mais pessimista poderá nem passar por uma escalada militar direta, mas por mudanças geopolíticas profundas. “Se o mercado tivesse certeza de que o Irão teria um governo pró-Ocidente, o prémio de risco do Médio Oriente desapareceria”, nota Malcolm Melville, da Schroders, apontando para o impacto estrutural que decisões políticas podem ter no preço da energia.
Para já, o mercado parece reviver um velho fantasma: tal como no Kuwait há mais de 30 anos, o petróleo volta a ser refém da geopolítica — e os próximos meses poderão ditar até onde chega esta nova escalada.



