Explicador. Irão hoje, Kuwait nos anos 90: mercado do petróleo revive padrão de crise que pode levar Brent a níveis históricos

Após um mês e meio de conflito entre os Estados Unidos e o Irão, o comportamento do Brent está a seguir um padrão já conhecido dos mercados: subida rápida, tensão crescente e um possível pico em poucos meses

Francisco Laranjeira

A escalada no Estreito de Ormuz está a empurrar novamente os preços da energia para níveis críticos e a comparação com a invasão do Kuwait, em 1990, começa a ganhar força entre analistas, num paralelismo que pode antecipar novos máximos no petróleo ainda este ano, avança o ‘El Economista’.

Após um mês e meio de conflito entre os Estados Unidos e o Irão, o comportamento do Brent está a seguir um padrão já conhecido dos mercados: subida rápida, tensão crescente e um possível pico em poucos meses. Especialistas admitem que o barril pode ultrapassar os 119,5 dólares (cerca de 110 euros) registados em março e até atingir os 150 dólares (cerca de 138 euros) em cenários mais extremos.

A leitura histórica é clara. “Do início de um conflito como o atual ou o de 1990 até o petróleo atingir o seu preço máximo passam-se, em média, dois a três meses”, explica o analista Juan Ignacio Crespo, apontando meados de maio como momento potencial para esse pico — caso o paralelismo com o Kuwait se confirme.

Em 1990, após a invasão do Kuwait pelo Iraque, o Brent quase duplicou em cerca de dois meses e meio. Já em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o mercado reagiu de forma mais curta e menos intensa, com o pico a surgir em apenas duas semanas e uma subida limitada a cerca de 35%. Agora, o cenário parece voltar a aproximar-se mais do padrão longo e explosivo dos anos 90.

O novo bloqueio ao Estreito de Ormuz e o colapso das negociações no fim de semana reforçaram este cenário. Vários bancos de investimento já admitem uma nova escalada acima dos 120 dólares (cerca de 110 euros), com instituições como o Société Générale a não excluírem picos pontuais nos 150 dólares, sobretudo se coincidirem com o esgotamento das reservas estratégicas usadas para travar a escassez global.

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O consenso de mercado aponta para um segundo trimestre de 2026 particularmente pressionado. As previsões variam entre os 107 dólares (cerca de 98 euros) por barril, segundo o Rabobank, e os 125 dólares (cerca de 115 euros) projetados pelo Intesa Sanpaolo, com média global próxima dos 97,1 dólares (cerca de 89 euros). Ainda assim, a partir do terceiro trimestre, espera-se algum alívio, com uma queda média de cerca de 11%.

O mesmo padrão repete-se no gás natural europeu. Os contratos TTF deverão atingir um pico médio de 49,3 euros por MWh no segundo trimestre, descendo depois para 45,3 euros no verão, refletindo a expectativa de estabilização — ainda que em níveis elevados.

Apesar da pressão, os analistas não antecipam um cenário semelhante à crise energética dos anos 70. O entendimento dominante é que o mercado pode estar próximo de um pico temporário. “Continuamos a acreditar que os preços do petróleo e do gás estão no pico, ainda que temporário, de uma forte recuperação”, afirma Norbert Rücker, do Julius Baer.

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Ainda assim, mesmo que haja uma correção posterior, dificilmente os preços regressarão aos níveis anteriores ao início do conflito. A incerteza geopolítica continuará a sustentar um prémio de risco elevado, sobretudo enquanto não houver um cessar-fogo definitivo.

Mais adiante, o ‘El Economista’ sublinha que o cenário mais pessimista poderá nem passar por uma escalada militar direta, mas por mudanças geopolíticas profundas. “Se o mercado tivesse certeza de que o Irão teria um governo pró-Ocidente, o prémio de risco do Médio Oriente desapareceria”, nota Malcolm Melville, da Schroders, apontando para o impacto estrutural que decisões políticas podem ter no preço da energia.

Para já, o mercado parece reviver um velho fantasma: tal como no Kuwait há mais de 30 anos, o petróleo volta a ser refém da geopolítica — e os próximos meses poderão ditar até onde chega esta nova escalada.

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