As principais instituições da União Europeia decidiram proibir os seus funcionários de utilizarem imagens e vídeos totalmente gerados por inteligência artificial nas comunicações oficiais, numa altura em que cresce a preocupação com ‘deepfakes’ e desinformação online.
Segundo o Politico Europe, a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia já têm políticas internas que impedem as suas equipas de comunicação de recorrer a conteúdos visuais criados integralmente por IA.
Uma aposta na confiança e autenticidade
A decisão de Bruxelas contrasta com a abordagem adotada nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump tem recorrido frequentemente a conteúdos gerados por inteligência artificial para comunicar, incluindo vídeos e imagens provocadores.
A estratégia europeia pretende reforçar a confiança dos cidadãos, numa altura em que a linha entre conteúdos reais e manipulados se torna cada vez mais difícil de distinguir.
Um porta-voz da Comissão Europeia sublinhou que o objetivo é garantir autenticidade nas imagens e vídeos disponibilizados ao público e aos jornalistas. Ainda assim, o uso de IA não é totalmente excluído: pode ser aplicado para melhorar a qualidade de conteúdos já existentes, mas não para criar materiais do zero.
O risco dos deepfakes e a pressão digital
O aumento exponencial de conteúdos gerados por IA está a transformar o panorama digital. Estima-se que milhões de deepfakes tenham sido partilhados online no último ano, incluindo em contextos políticos, com impacto direto em campanhas eleitorais em vários países europeus.
Esta realidade levou as instituições europeias a adotarem uma postura cautelosa. Especialistas defendem que a preocupação com conteúdos enganadores, com a possível manipulação da realidade e com a falta de transparência justificam esta abordagem mais restritiva.
Entre a prudência e a relevância
Apesar disso, há quem questione se uma proibição total será a melhor solução. Alguns especialistas defendem que evitar completamente o uso de conteúdos gerados por IA pode limitar a capacidade de resposta das instituições num ambiente digital cada vez mais rápido e competitivo.
A comunicação política evoluiu para um cenário onde a rapidez e o impacto visual são essenciais, sobretudo em momentos de crise ou tensão internacional. Nesse contexto, a ausência de ferramentas inovadoras pode colocar a União Europeia em desvantagem.
O desafio da liderança digital
Outro ponto levantado por analistas é a oportunidade perdida de educar o público sobre o uso responsável da inteligência artificial. A legislação europeia já exige que conteúdos gerados por IA sejam devidamente identificados e marcados, promovendo transparência.
Ainda assim, ao optar por não utilizar estas ferramentas nas suas próprias comunicações, a União Europeia poderá estar a abdicar de liderar pelo exemplo. Mostrar como usar a IA de forma ética, clara e responsável poderia contribuir para aumentar a literacia digital dos cidadãos.
A decisão de Bruxelas reflete, assim, um equilíbrio delicado entre proteger a confiança pública e acompanhar a evolução tecnológica – um desafio que continuará a marcar o futuro da comunicação política na Europa.





