A ofensiva lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão, sem um objetivo estratégico de vitória claramente definido, está a propagar-se por todo o Médio Oriente e ameaça mergulhar a região num cenário de caos com impacto direto na economia global. Ao quarto dia de intensas trocas de mísseis e drones, o conflito já atingiu uma dezena de países, incluindo bases britânicas em Chipre, e não há sinais de desanuviamento.
Nem Washington nem Teerão (e muito menos Telavive) demonstram disposição para reduzir a intensidade das hostilidades. Pelo contrário, as declarações públicas e os movimentos militares sugerem uma escalada potencialmente duradoura.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou na segunda-feira que o Pentágono projeta uma campanha de quatro a cinco semanas, sublinhando, no entanto, que os Estados Unidos têm capacidade para “aguentar muito mais”. Prometeu fazer “tudo o que for necessário” para subjugar o Irão, incluindo o eventual envio de tropas terrestres.
“Nem sequer começámos a atingi-los com força. A grande vaga (de ataques) ainda não chegou. Está para breve”, declarou aos jornalistas. Noutra intervenção, reforçou: “Não tenho medo de tropas no terreno. Todos os presidentes dizem: ‘Não haverá tropas no terreno’. Eu não digo isso. O que eu digo é: ‘provavelmente não precisaremos delas’ ou ‘se forem necessárias (utilizá-las-emos)’”.
A posição de Trump suscita receios de que o líder republicano, que foi um crítico contundente das chamadas guerras intermináveis, como as do Afeganistão ou do Iraque, possa acabar por desencadear um conflito de longa duração com custos estratégicos, militares e financeiros elevados para os Estados Unidos.
O chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, reconheceu que alcançar os objetivos — que permanecem pouco claros, seja mudança de regime, neutralização do programa nuclear iraniano ou destruição da capacidade de lançamento de mísseis — “levará tempo” e será “um trabalho árduo”. O próprio Trump advertiu que poderão ocorrer mais baixas entre os militares norte-americanos, após a confirmação de seis mortos até ao momento.
Teerão descentraliza comando após decapitação da liderança
Do lado iraniano, o cenário também é de radicalização. A liderança do regime sofreu um golpe significativo com a morte do aiatola Ali Khamenei e de vários altos responsáveis militares nos bombardeamentos iniciais. Ainda assim, o país não só demonstra vontade de manter o confronto como poderá já não ter capacidade para o travar.
Antes do início da ofensiva, Teerão preparou um plano de atuação descentralizada, permitindo que unidades militares operem de forma autónoma caso a cadeia de comando fosse comprometida. Paralelamente, grupos armados aliados na região — os chamados proxies — receberam instruções para lançar ofensivas próprias.
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, admitiu essa dinâmica em declarações à Al Jazeera: “O que aconteceu em Omã não foi decisão nossa. Dissemos às nossas Forças Armadas que fossem cuidadosas com os alvos que escolhem”. Acrescentou que as unidades “estão agora a operar de forma independente e, de alguma forma, isoladas. Estão a agir com base em instruções gerais que lhes foram dadas com antecedência”.
A referência dizia respeito a um ataque com drones contra um porto e um petroleiro em Omã, junto ao estreito de Ormuz — país que até então mediava negociações entre Washington e Teerão e que tinha escapado às retaliações iranianas. Desde sábado, o Irão já atacou os seis Estados árabes do Golfo, além da Jordânia e do Iraque, todos com presença militar norte-americana.
Analistas alertam que a autonomia operacional das unidades iranianas poderá conduzir a ataques cada vez mais imprevisíveis e potencialmente mais agressivos contra infraestruturas energéticas e de transporte nos países vizinhos, com o objetivo de aumentar o custo da guerra e forçar os Estados Unidos a negociar.
Infraestruturas energéticas e aeroportos sob ataque
Os incidentes multiplicam-se. Um drone iraniano atingiu a refinaria saudita de Ras Tanura. No Qatar, dois ataques afetaram infraestruturas de gás, levando ao encerramento de Ras Laffan, o maior complexo de gás natural liquefeito do mundo. Os Emirados Árabes Unidos afirmam ter intercetado mais de 165 mísseis balísticos e cerca de 500 drones — números que não foram verificados de forma independente.
No Kuwait, registou-se um episódio confuso de “fogo amigo” que terá levado à queda de três caças norte-americanos. O Comando Central dos EUA (Centcom) confirmou que caças iranianos operavam na zona nesse momento, embora especialistas considerem improvável que três aeronaves sejam abatidas num único incidente dessa natureza. A embaixada norte-americana no país também foi alvo de ataque.
O impacto já se faz sentir na aviação civil. Um ataque danificou um terminal do Aeroporto Internacional do Dubai, o mais movimentado do mundo. Aeroportos em Abu Dhabi, Bahrein e Kuwait também sofreram danos. Vários países encerraram o espaço aéreo e companhias aéreas cancelaram milhares de voos.
Mona Yacoubian, analista especializada em Médio Oriente no Centro Internacional de Estudos Estratégicos, afirmou que “os ataques iranianos já perturbaram significativamente a região”, acrescentando que o encerramento simultâneo dos três principais aeroportos regionais “não tem precedentes e tem implicações significativas para o comércio e o transporte”.
Estreito de Ormuz encerrado sob ameaça
Em paralelo, Teerão declarou o encerramento do estreito de Ormuz. “O estreito está fechado. Se alguém tentar passar, a Guarda Revolucionária e a marinha incendiarão esses navios”, afirmou Ebrahim Jabari, assessor do comandante-chefe da Guarda Revolucionária, citado por meios estatais iranianos.
A estratégia iraniana passa por exercer máxima pressão militar e económica sobre os aliados regionais de Washington, esperando que estes pressionem os Estados Unidos a regressar à mesa das negociações. Para já, a tática não produziu resultados.
Trump afirmou que os países árabes “iam envolver-se pouco e agora insistem em envolver-se mais”. De facto, após condenações iniciais aos bombardeamentos, os comunicados dos ministérios da Defesa árabes endureceram o tom, havendo referências à “opção de responder aos ataques iranianos”.
O antigo primeiro-ministro do Qatar, Hamad bin Jassim bin Jaber al-Thani, declarou que o Irão “perdeu toda a simpatia do Golfo, que promovia com todos os seus esforços possíveis a desescalada”.
Proxies e risco de expansão regional
A evolução do conflito dependerá também da atuação dos grupos aliados do Irão. As milícias xiitas iraquianas Kataeb Hezbollah e o Hezbollah libanês anunciaram que entrarão na guerra para apoiar Teerão. O movimento libanês reivindicou ataques contra Israel com “enxames de drones” e “mísseis de precisão”, ao que Israel respondeu com bombardeamentos no sul do Líbano e em Beirute, provocando mais de 50 mortos.
No Iémen, os hutis manifestaram apoio ao Irão, embora ainda não tenham confirmado intervenção direta. O seu líder, Abdel Malik al-Huti, declarou que o grupo está “pronto para qualquer escalada”.
Apesar dos mais de 400 alvos militares que Israel afirma ter atingido, permanece incerto o impacto real sobre a capacidade militar iraniana. A principal vantagem estratégica de Teerão reside no seu vasto arsenal de mísseis balísticos — cerca de 3.000 segundo estimativas do Centcom de 2022 — além de mísseis de cruzeiro e drones.
O país construiu ao longo dos anos bases subterrâneas nas montanhas, algumas a centenas de metros de profundidade, capazes de lançar mísseis Shahab-3, Sejil ou Khorramshahr, com alcance até 2.000 quilómetros.
A marinha iraniana mantém igualmente uma força considerável: cerca de 30 navios de combate operacionais, dos quais quatro terão sido destruídos, incluindo o INS Makran, antigo petroleiro convertido em base expedicionária móvel, atingido na base naval de Bandar Abbas. O Irão dispõe ainda de entre 19 e 25 submarinos operacionais, pelo menos quatro catamarãs armados com mísseis da classe Shahid Soleimani e mais de 1.500 lanchas rápidas, 300 das quais equipadas com lançadores de mísseis.
Especialistas alertam que os sistemas defensivos de Israel e dos países do Golfo poderão esgotar-se antes de serem alcançados os objetivos militares. Segundo a Bloomberg, os Emirados Árabes Unidos poderão ficar sem mísseis defensivos numa semana e o Qatar em apenas quatro dias, ao ritmo atual.
Um ponto de viragem regional?
A eventual entrada direta da Arábia Saudita e de outros Estados do Golfo alteraria profundamente o equilíbrio militar. O jornalista diplomático Guy Azriel, da cadeia israelita i24, considera que tal cenário seria “um verdadeiro ponto de viragem”, com “centenas de caças, mísseis de precisão e inteligência local” a abrirem uma frente adicional contra o Irão.
No entanto, isso representaria igualmente “um enorme terramoto diplomático”, rompendo a neutralidade árabe-sunita face ao Irão xiita e colocando a Arábia Saudita a combater ao lado de Israel.
O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, garantiu que “isto não se vai transformar numa guerra interminável”, sublinhando que os ataques estão a ser conduzidos de forma “cirúrgica, avassaladora e sem complexos”. Ainda assim, o rumo do conflito permanece incerto.
Ao quarto dia de combates, com múltiplas frentes abertas e infraestruturas críticas sob ataque, o Médio Oriente encontra-se numa encruzilhada histórica. A possibilidade de uma nova guerra interminável — com repercussões globais — já não é mera especulação, mas um risco real em rápida evolução.




