Se Ormuz fecha, a Europa (e o mundo…) tremem: a via que pode travar a economia global

Com menos de 60 quilómetros de largura, o Estreito de Ormuz é a principal saída marítima para a produção energética do Médio Oriente

Francisco Laranjeira

A ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão voltou a colocar o Estreito de Ormuz no centro da tensão geopolítica. Após dois dias de bombardeamentos, Teerão anunciou o encerramento desta via estratégica, advertindo que a Guarda Revolucionária abrirá fogo sobre qualquer navio que tente atravessá-la. O jornal espanhol ‘El País’ analisou o impacto deste bloqueio para a Europa com base em mapas de tráfego marítimo e dados recentes.

Com menos de 60 quilómetros de largura, o Estreito de Ormuz é a principal saída marítima para a produção energética do Médio Oriente. Por ali passa cerca de um quinto do crude mundial transportado por navio, segundo a Agência Internacional de Energia, além de pouco mais de 20% do tráfego global de gás natural liquefeito.

O bloqueio já se reflete nos mercados. O preço do petróleo Brent, referência na Europa e em grande parte do mundo, subiu 7% na passada segunda-feira, a maior valorização em quase nove meses. Pelo menos 150 petroleiros acumularam-se em ambos os lados do estreito nas últimas 72 horas, aguardando autorização ou garantias de segurança para prosseguir viagem.

Sem esta rota, países como Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrain e Kuwait ficam praticamente impossibilitados de exportar petróleo e gás. A Arábia Saudita, maior exportador mundial de crude, poderia recorrer ao oleoduto Leste-Oeste, mas isso reduziria a sua capacidade de exportação para cerca de metade — de 10 para cinco milhões de barris por dia.

A maior parte do petróleo que atravessa Ormuz destina-se à Ásia. Em 2025, cerca de 84% foi exportado para esse continente, com a China a absorver 25% do total proveniente da região. Índia, Japão e Coreia do Sul também figuram entre os principais compradores. A Europa recebeu menos de 1% do crude produzido na zona do estreito.

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O impacto estende-se ao mercado do gás. Emirados Árabes Unidos e Qatar exportaram grandes volumes de gás natural liquefeito para a Ásia, novamente com a China como principal destino. A eventual escassez poderá levar os países asiáticos a procurar fornecimentos alternativos, pressionando indiretamente o mercado europeu.

No Velho Continente, o receio de cortes energéticos reavivou memórias da crise inflacionista desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Ainda assim, a União Europeia encontra-se numa posição relativamente mais protegida. Grande parte do petróleo importado provém da Noruega e dos EUA, que juntos representaram quase um terço das compras externas da UE até ao final de 2025, segundo dados do Eurostat.

Se forem considerados outros fornecedores não diretamente afetados pelo conflito, como Cazaquistão, Líbia e Nigéria, as importações da UE atingem 56% do total. Já a Arábia Saudita e o Iraque representam, em conjunto, 14,5% das compras europeias de crude, com Grécia e França entre os países mais expostos.

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No caso do gás, cerca de 60% do gás natural liquefeito importado pela UE no último trimestre de 2025 teve origem nos Estados Unidos. Argélia e Rússia contribuíram com cerca de 20%, enquanto o Qatar representou aproximadamente 6%.

Apesar desta diversificação, o impacto já é visível. Para além do bloqueio do estreito — cujas consequências poderão agravar-se nos próximos dias — o caos provocado pelos ataques e a paralisação de infraestruturas essenciais na região fizeram disparar o preço do gás na Europa em mais de 40%. As bolsas europeias, incluindo a espanhola, registaram perdas na sessão desta segunda-feira, refletindo o nervosismo dos investidores face ao risco de uma nova crise energética global.

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