Um relatório independente sobre distúrbios violentos, em 2022, em Leicester, confirma o envolvimento de cidadãos portugueses de origem indiana, oriundos de Damão e Diu, em tensões sociais registadas na cidade inglesa há vários anos.
O documento, intitulado “Melhores juntos: compreendendo a violência de 2022 em Leicester”, publicado esta semana, descreve um ciclo de confrontos entre grupos de hindus e muçulmanos em Leicester, agravado por desinformação e influências políticas amplificadas nas redes sociais.
No centro de vários incidentes, entre maio e setembro de 2022, estiveram hostilidades entre membros de comunidades hindus, “especialmente de Damão e Diu”, e muçulmanas, que aparecem simultaneamente como vítimas e agressores.
Cerca de 28% da população em Leicester, no centro de Inglaterra, identifica-se como indiana, uma das maiores comunidades no Reino Unido.
A partir dos anos 2000 e na aproximação ao ‘Brexit’, esta cidade recebeu novas vagas migratórias de origem ‘gujarati’ vindas de Damão e Diu, descritas como maioritariamente hindu, “principalmente composta por titulares de passaporte português” devido ao estatuto de antiga colónia.
Este fluxo contribuiu para Leicester possuir também uma das maiores concentrações de portugueses em território britânico.
O relatório, escrito por uma Comissão de Inquérito Independente formada por académicos, identifica como “gatilho” das hostilidades um ataque de um grupo de jovens hindus contra um jovem muçulmano em maio de 2022.
Durante o verão, residentes muçulmanos relataram o comportamento considerado provocatório, incluindo caravanas de carros, buzinas e bandeiras, de “jovens hindus, em grande parte de Damão e Diu”, em torno do Dia da Independência da Índia (15 de agosto) e após o jogo Índia–Paquistão (28 de agosto).
Após uma série de incidentes retaliatórios, o clímax foi atingido em 17 de setembro, com uma marcha de hindus em áreas muçulmanas da cidade que resultou em confrontos diretos nas ruas.
“Nenhum grupo foi o único responsável pela violência: membros das comunidades hindus, especialmente de Damão e Diu, e membros das comunidades muçulmanas foram tanto vítimas como perpetradores”, concluíram os autores.
Em declarações à agência Lusa, um dos autores, Subir Sinha, professor da universidade Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS na sigla inglesa) e diretor do Instituto sobre a Ásia do Sul, afirmou que a situação em Leicester é “mais complexa” do que apenas um conflito religioso.
O académico apontou outros factores, como a precariedade laboral, sobrelotação de habitações, barreiras à integração, preconceitos de casta, marginalização e influências de movimentos políticos indianos.
Por exemplo, sobre os alegados comportamentos antissociais relacionados com o consumo de álcool e música alta, Sinha explica que muitos destes jovens trabalham por turnos em fábricas têxteis e alternam no uso de camas, pelos que os seus horários podem ser irregulares.
Por outro lado, a sua integração na sociedade britânica, através de aulas de língua ou outros tipos de atividades, que teria ocorrido em espaços seculares ou, pelo menos, multirreligiosos, foi prejudicada por medidas de austeridade, que encerraram esse tipo de programas.
“Agora estão a ser realizados por organizações religiosas. Pelo que ouvimos e vimos, os templos agora têm reuniões muito grandes do que consideramos ser organizações Hindutva, com pessoas vindas da Índia para discursar”, promovendo a ideologia de nacionalismo hindu, explicou Sinha.
O relatório critica a autarquia de Leicester por não mediar os conflitos e a polícia pela falta de compreensão das dinâmicas comunitárias e resposta tardia, desigual e, em alguns casos, vista como discriminatória.
Entre as recomendações, os autores pedem um reforço de políticas de coesão social e de serviços públicos, mecanismos de combate à desinformação e uma estratégia de diálogo com as comunidades recém-chegadas, incluindo reuniões dedicadas com residentes oriundos de Damão e Diu.








