A estratégia de nomeações diplomáticas da administração de Donald Trump está a provocar uma sucessão de incidentes com governos europeus, numa escalada que já levou à aplicação de sanções formais contra o embaixador norte-americano em França e à convocação de representantes diplomáticos em várias capitais. Em causa estão intervenções públicas consideradas ingerências nos assuntos internos dos Estados anfitriões, declarações politicamente incendiárias e comportamentos vistos como desrespeitosos das normas diplomáticas.
Segundo o jornal El Confidencial, a sanção aplicada ao embaixador dos Estados Unidos em Paris, Charles Kushner, tornou-se o símbolo mais visível desta tensão. Kushner foi chamado a consultas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros francês na sequência de comentários publicados nas redes sociais pela administração Trump após a morte de Quentin Deranque, um jovem ativista ultranacionalista de 23 anos agredido em Lyon por indivíduos associados à extrema-esquerda. A mensagem, divulgada pela Oficina de Contraterrorismo dos EUA e partilhada pela embaixada em Paris, afirmava que “o extremismo violento de esquerda se encontra em alta” e que a morte de Deranque demonstrava “a ameaça que representa para a segurança pública”. O Departamento de Estado, liderado por Marco Rubio, acrescentava que iria “continuar a monitorizar a situação” e esperava que os “autores destas violências” fossem levados à justiça.
O Eliseu considerou a publicação uma ingerência nos assuntos internos franceses e uma “instrumentalização da dor”. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, reagiu com firmeza: “Não temos nenhuma lição, no que diz respeito à violência em particular, a aprender da internacional reacionária”, declarou, acrescentando que as análises sobre a vida política francesa competem às autoridades nacionais. Kushner foi convocado para comparecer no Quai d’Orsay às 19h00 de 23 de fevereiro, mas enviou um subordinado, alegando motivos pessoais. Tratou-se da segunda ausência em menos de um ano: em agosto anterior já tinha sido chamado a prestar esclarecimentos por acusações de alegada tibieza do Presidente Emmanuel Macron face ao antissemitismo.
Desta vez, as consequências foram mais severas. Barrot acusou o diplomata de revelar uma “incompreensão básica das implicações fundamentais de uma missão de embaixador” e vedou-lhe o acesso a instâncias governamentais francesas. Ainda assim, o Eliseu deixou aberta a porta à normalização das relações, esclarecendo que a sanção poderá ser levantada caso Kushner compareça para os “intercâmbios diplomáticos que permitam aliviar as fricções que, de forma inevitável, surgem de uma relação de amizade que remonta a 250 anos”. Fontes próximas do ministro indicaram posteriormente que Kushner contactou telefonicamente Barrot, comprometendo-se a “não voltar a interferir” no debate público francês.
O perfil de Kushner é ilustrativo da lógica das nomeações. Magnata do setor imobiliário, anteriormente condenado por malversação e posteriormente indultado por Trump, mantém fortes ligações a Israel e é consogro do Presidente norte-americano: o seu filho, Jared Kushner, é casado com Ivanka Trump. Tradicionalmente, a designação de embaixadores serve para recompensar grandes doadores de campanha ou aliados políticos, sobretudo para destinos europeus considerados prestigiados. No entanto, o caso francês sugere que Trump escolheu alguns representantes com uma postura assumidamente combativa.
A tensão não se limita a Paris. Na Polónia, o embaixador Tom Rose anunciou unilateralmente o corte de relações com o presidente da Câmara Baixa polaca por este se recusar a apoiar a candidatura de Trump ao Prémio Nobel da Paz. Na Dinamarca, Ken Howery, cofundador da PayPal e embaixador em Copenhaga, gerou indignação ao retirar, em dezembro, as bandeiras que homenageavam soldados dinamarqueses mortos no Afeganistão, num contexto de críticas de Trump à contribuição europeia para a NATO e de controvérsia em torno da Gronelândia. A reação popular traduziu-se na colocação de dezenas de novas bandeiras junto à embaixada.
O caso mais explosivo ocorreu na Bélgica, protagonizado por Bill White. O embaixador acusou o Governo belga de “antissemitismo” por não travar uma investigação judicial relacionada com circuncisões realizadas em Antuérpia por mohels — praticantes tradicionais judaicos — sem a presença de profissionais de saúde, como exige a lei. Num texto publicado em maiúsculas, à imagem do estilo de Trump, White invocou os “milhares de anos de experiência” dos mohels e exigiu o fim do inquérito. O ministro dos Negócios Estrangeiros belga, Maxime Prévot, convocou-o de imediato, lembrando que “um embaixador acreditado tem a responsabilidade de respeitar as nossas instituições, os nossos representantes eleitos e a independência do nosso sistema judicial”.
A polémica intensificou-se quando White atacou vários políticos belgas nas redes sociais, culminando na acusação ao ministro da Saúde, Frank Vandenbroucke, de “sugerir queimar dinheiro negro” do partido socialista flamengo — uma alusão a um escândalo dos anos 90 pelo qual o governante nunca foi acusado formalmente. O primeiro-ministro belga, Bart de Wever, lamentou a prática norte-americana de nomear figuras próximas do Presidente em vez de diplomatas de carreira, sublinhando: “[White] procura a polémica com figuras políticas nacionais. Nunca tínhamos visto algo assim.”
A polémica gerou também críticas dentro dos próprios Estados Unidos. Charles S. Shapiro, antigo embaixador em Caracas e ex-presidente do Instituto das Americas, recordou uma regra essencial da diplomacia: “Como antigo embaixador, uma das regras básicas é que, se o ministro dos Negócios Estrangeiros do país que o acolhe o convoca, vai. E é pontual. Não é opcional.”







