A opção do Governo para a localização do futuro aeroporto Luís de Camões volta a gerar forte polémica, depois de imagens exclusivas revelarem que a infraestrutura está prevista para terrenos com elevado risco de inundações na margem sul do Tejo. Além de ser a solução mais onerosa, com um impacto estimado entre 25 mil milhões e 35 mil milhões de euros para o Orçamento do Estado, os acontecimentos da última semana vieram demonstrar que se trata também da alternativa mais arriscada do ponto de vista ambiental e operacional.
De acordo com uma investigação divulgada pela TVI, o local escolhido situa-se numa extensa zona de leito de cheia, no extremo oriental do campo de tiro de Alcochete, a mais de 50 quilómetros de Lisboa. As imagens mostram áreas regularmente alagadas, precisamente onde está prevista a instalação de pistas e infraestruturas aeronáuticas, numa região historicamente vulnerável a cheias.
Para mitigar estes riscos, o projeto prevê a maior movimentação de terras alguma vez realizada em Portugal: cerca de 34 milhões de metros cúbicos. Trata-se de um volume comparável a um aterro compacto do tamanho da Avenida da Liberdade com 400 metros de altura, ou a uma estrutura de terra com cinco quilómetros, equivalente à configuração do Estádio da Luz. Esta solução de engenharia, contudo, implica um aumento significativo dos custos, como a própria concessionária tem vindo a alertar.
Um especialista ouvido pela TVI sublinha que a implantação do aeroporto numa bacia hidrográfica ativa agrava os riscos. “Há aqui várias zonas alagadiças, e algumas das principais infraestruturas aeronáuticas estão projetadas exatamente nos locais com maior propensão para cheias”, afirmou, defendendo que a relocalização do projeto permitiria reduzir perigos e custos. Na sua perspetiva, alternativas como Rio Frio, o Montijo ou Alcochete, mas em zonas mais elevadas e próximas de Lisboa, seriam tecnicamente mais seguras.
Outro problema estrutural identificado prende-se com os acessos. Durante as cheias recentes, a estrada entre Benavente e o campo de tiro esteve submersa e cortada ao trânsito durante 11 dias, demonstrando a fragilidade da mobilidade rodoviária na zona. Em contraste, a base aérea do Montijo manteve-se plenamente operacional, com acessos transitáveis mesmo após noites de chuva intensa na margem sul do Tejo.
A localização agora escolhida não é nova no debate político. Em 2019, chegou a ser contratada pelo então primeiro-ministro António Costa como solução complementar ao aeroporto da Portela. Segundo a reportagem, se não fosse a oposição de autarcas e um relatório ambiental desfavorável, a infraestrutura poderia já estar em funcionamento, reacendendo agora a discussão sobre se o país está a avançar para a opção mais cara e mais vulnerável.








