Os quase quatro milhões de ficheiros relacionados com Jeffrey Epstein, divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, contêm múltiplas referências a Portugal, incluindo nomes de figuras públicas, escalas aéreas nos Açores e menções ao caso Casa Pia e ao desaparecimento de Madeleine McCann. Entre os nomes citados está o atual embaixador de Portugal em Singapura, Carlos Pires.
A ligação de Carlos Pires ao processo surge numa troca de emails datada de novembro de 2010, período em que exercia funções como adjunto do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado.
Num dos emails divulgados, Epstein escreve: “Aguardo ansiosamente a sua visita a Nova Iorque. Venha em breve.” A resposta atribuída ao diplomata português refere: “Obrigado, Jeffrey. Foi um prazer conhecê-lo e aguardo também a sua visita a Portugal muito em breve. Mantemos o contacto.”
As mensagens sugerem convites mútuos para deslocações a Nova Iorque e a Lisboa. No entanto, Carlos Pires garante que nunca chegou a reunir-se pessoalmente com o multimilionário norte-americano.
“O teor da troca de emails apresentada, da qual não guardo memória, é meramente circunstancial, comum no exercício das minhas funções, em que prima a cortesia, pelo que daí não há qualquer extrapolação a fazer. Não privei com Jeffrey Epstein e sublinho que nunca houve, obviamente, qualquer encontro em Nova Iorque ou Portugal”, afirmou.
O diplomata acrescenta que, no exercício das suas funções, contactou com milhares de pessoas, a maioria das quais nunca mais voltou a encontrar ou a contactar. Sobre a data dos emails, esclarece que, “passados 16 anos”, não se recorda de se ter cruzado com Epstein, admitindo que qualquer eventual contacto “só poderia ter acontecido no Fórum Sir Bani Yas, organizado pelos Emirados Árabes Unidos, ocasião em que acompanhou o então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros”.
“Se tal ocorreu, nesse contexto protocolar e institucional, desconhecia em absoluto o seu percurso e o seu passado”, sublinha, reforçando: “Ao longo de quase três décadas ao serviço do Estado português, tenho pautado o desempenho dos meus diversos cargos pela seriedade, ética e transparência. Refuto qualquer tipo de associação caluniosa ao referido indivíduo, através de insinuações e conjeturas, e repudio, de forma veemente, qualquer tentativa de ataque à minha honra, bom-nome e reputação.”
Referência a Luís Amado numa lista de contactos sugeridos
Os ficheiros incluem ainda o nome de Luís Amado numa lista de 15 personalidades estrangeiras que um remetente não identificado sugeria que Epstein contactasse. O antigo ministro já reagiu publicamente a essa menção, classificando-a como “ridícula” e assegurando que nunca manteve qualquer contacto com o predador sexual.
Escalas nos Açores e referências a Portugal
Entre os documentos divulgados surgem referências a viagens realizadas no avião privado de Epstein que terão incluído escalas nos Açores. Os ficheiros não detalham o propósito dessas paragens, mas confirmam a presença de território português em rotas associadas ao multimilionário.
Caso Casa Pia e Madeleine McCann mencionados
Os documentos incluem igualmente um email enviado em julho de 2019 às autoridades norte-americanas que menciona o documentário “O Desaparecimento de Madeleine McCann”, produzido pela Netflix.
Nesse email, cujo remetente surge ocultado, é referido que jornalistas portugueses, no âmbito do documentário sobre Madeleine McCann, mencionam um escândalo anterior de “abuso infantil num orfanato português”, numa clara referência ao caso Casa Pia. O texto acrescenta que seria “um facto conhecido” que “milionários americanos viajavam para Portugal em jatos privados” para abusar sexualmente de menores institucionalizados.
O autor da mensagem sugere às autoridades que sigam essa “linha de investigação”, estabelecendo uma ligação indireta entre o contexto português e o universo de relações de Epstein.
Funcionários portugueses ao serviço de Epstein
Os ficheiros revelam ainda que Epstein terá contado com vários funcionários domésticos de origem portuguesa e brasileira, aos quais terá pago diversas viagens internacionais.
Uma das empregadas identificadas é Maria Gomes de Melo, mulher do mordomo brasileiro Valdson Vieira Cotrin, que terá trabalhado para Epstein durante quase duas décadas. Em declarações ao jornal britânico The Telegraph, Maria Gomes de Melo afirmou que nunca presenciou comportamentos impróprios envolvendo menores.
“Em cerca de 20 anos, nunca vi nada de impróprio com mulheres menores de idade, nem em Nova Iorque, nem na sua ilha privada, nem em Paris”, declarou. Segundo o seu testemunho, as jovens deslocavam-se para “fazer massagens e cortar as unhas”, garantindo que “tudo parava por aí”.














