“A violação não é matéria de opinião”: Mais de uma centena de personalidades repudia declarações de Cristina Ferreira em carta aberta

Mais de uma centena de personalidades de diferentes áreas, incluindo académicos, psicólogos, juristas, ativistas, políticos e figuras públicas, subscreveu uma carta aberta onde critica duramente as declarações feitas por Cristina Ferreira no programa Dois às 10, da TVI, a propósito de um caso de violação de uma adolescente de 16 anos.

Executive Digest

Mais de uma centena de personalidades de diferentes áreas, incluindo académicos, psicólogos, juristas, ativistas, políticos e figuras públicas, subscreveu uma carta aberta onde critica duramente as declarações feitas por Cristina Ferreira no programa Dois às 10, da TVI, a propósito de um caso de violação de uma adolescente de 16 anos. O documento, intitulado “A violação não é matéria de opinião”, expressa “o mais absoluto repúdio pelo teor e pelo tom do debate” emitido a 14 de Abril.

De acordo com o jornal Público, a iniciativa surge três dias após a emissão do programa e resulta de uma preocupação crescente com o tratamento mediático de temas de violência sexual. A investigadora Maria João Faustino, primeira signatária da carta, explicou que o documento nasce da “preocupação com a proliferação de discursos irresponsáveis sobre a violência sexual nos debates públicos”, defendendo que é urgente “um debate sério sobre estes temas em vez da espectacularização do crime”.

A carta critica não apenas o episódio concreto, mas também o contexto mediático em que ocorreu, apontando para uma tendência de banalização da violência. Os subscritores alertam que “tertúlias televisivas sobre criminalidade tendem a trivializar os casos de violência, dissecando histórias de vida como se personagens de novela se tratassem”, ignorando o impacto real nas vítimas. Para Maria João Faustino, o episódio foi “tremendamente grave” e exige mais do que indignação, defendendo que “é altura de reivindicar” maior responsabilidade.

Entre os aspetos mais criticados está a forma como o crime foi retratado no debate televisivo. Segundo a investigadora, “o que foi retratado ali não foi um crime sexual, é quase como se tivesse sido uma orgia”, alertando para o risco de revitimização. A carta sublinha ainda que “os media podem ser um instrumento de revitimização, contribuindo para uma cultura que culpabiliza as vítimas de violência sexual”, reiterando que “a violência é uma escolha — consciente — dos perpetradores”.

Os signatários também criticam a reação da TVI e da própria apresentadora. O comunicado da estação é descrito como marcado pela ausência de autocrítica, enquanto Cristina Ferreira terá procurado justificar-se alegando que a sua intervenção visava obter uma resposta técnica. No entanto, Maria João Faustino contrapõe que “é uma pergunta carregada de sentido simbólico e que nunca deveria ter sido formulada naquele espaço”, reforçando que o enquadramento mediático tem consequências reais.

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No final, a carta apresenta um conjunto de exigências concretas, incluindo maior rigor no tratamento da violência sexual, rejeição do voyeurismo mediático e recurso a especialistas devidamente qualificados. Os subscritores pedem ainda que a Ordem dos Psicólogos Portugueses emita diretrizes claras e sublinham que “esta não é uma competência genérica”, alertando que a falta de especialização “compromete as vítimas-sobreviventes”. Entre os signatários estão nomes como Isabel Moreira, Francisco Louçã e Marta Crawford, entre muitas outras figuras públicas.

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