IA que fala por si do ‘além’? Tecnologia que pode manter as suas redes sociais ‘vivas’ já foi aprovada e gera polémica

Meta de Mark Zuckerberg obteve no final de dezembro último uma patente que descreve a utilização de inteligência artificial para simular a atividade de um utilizador nas redes sociais

Francisco Laranjeira

E se a sua conta de Instagram continuasse a publicar depois de morrer?

Segundo o ‘Business Insider’, a Meta de Mark Zuckerberg obteve no final de dezembro último uma patente que descreve a utilização de inteligência artificial para simular a atividade de um utilizador nas redes sociais — incluindo respostas a publicações de outras pessoas — mesmo quando esse utilizador está ausente… ou já faleceu.

O documento explica que um modelo de linguagem de grande dimensão poderia “simular o utilizador” quando este estivesse afastado da plataforma, seja por uma pausa prolongada, seja por morte. A tecnologia seria treinada com dados específicos do utilizador, como comentários, gostos e conteúdos publicados anteriormente, criando uma espécie de “clone digital” capaz de interagir com seguidores, responder a mensagens privadas ou até comentar publicações.

Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da Meta, surge como principal autor da patente, submetida inicialmente em 2023. Ainda assim, um porta-voz da empresa garantiu ao ‘Business Insider’ que não existem planos para avançar com esta tecnologia.

A lógica descrita na patente parte de um argumento simples: quando alguém deixa de publicar, a experiência dos seguidores é afetada. E, se a ausência for permanente, o impacto é ainda maior. A solução? Preencher esse vazio com uma versão digital que reproduza o comportamento online da pessoa.

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Para criadores de conteúdos ou influencers que dependem das plataformas da Meta para rendimento, uma ferramenta deste género poderia funcionar como “substituto digital” durante períodos de pausa. A patente refere ainda a possibilidade de simular chamadas de vídeo ou áudio através de modelos de IA.

Mas a ideia de “imortalidade digital” levanta questões bem mais profundas do que a simples gestão de uma conta ativa.

Especialistas em direitos digitais e privacidade pós-morte alertam para implicações legais, éticas e filosóficas. Edina Harbinja, professora na Universidade de Birmingham, sublinhou ao ‘Business Insider’ que este tipo de tecnologia não afeta apenas o direito, mas também questões sociais e morais complexas.

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O conceito não é totalmente novo. Há cerca de uma década, o Facebook lançou ferramentas que permitem nomear um “contacto herdeiro” para gerir contas após a morte. Em 2023, Mark Zuckerberg falou publicamente sobre avatares virtuais de pessoas falecidas, sugerindo que poderiam ajudar no processo de luto.

Entretanto, surgiram várias startups dedicadas à chamada “grief tech” — tecnologia associada ao luto — criando chatbots que replicam a personalidade de pessoas falecidas. Em 2021, a Microsoft também registou uma patente para um chatbot capaz de simular indivíduos mortos ou figuras públicas.

Ainda assim, a possibilidade de grandes empresas tecnológicas avançarem neste campo intensifica o debate. Para alguns, trata-se de inovação com potencial terapêutico. Para outros, é uma linha vermelha.

Joseph Davis, professor de sociologia na Universidade da Virgínia, alerta que uma das tarefas fundamentais do luto é enfrentar a perda real. “Deixem os mortos estar mortos”, defende, considerando que simular a presença pode criar confusão emocional.

Para já, a Meta garante que não pretende implementar a tecnologia descrita na patente. Mas o simples facto de a ideia existir — e estar formalmente registada — mostra até onde pode ir a ambição da inteligência artificial: não apenas replicar a voz ou o rosto, mas manter viva a nossa presença digital.

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Num mundo onde a vida online já se confunde com a identidade pessoal, a pergunta deixa de ser apenas tecnológica. É também profundamente humana: queremos mesmo ser imortais nas redes sociais?

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