As eleições presidenciais realizadas no último fim de semana em Portugal deixaram António Costa como o maior derrotado político, avaliou esta terça-feira o jornal ‘POLITICO’. António José Seguro, antigo rival interno do Partido Socialista (PS), foi eleito novo Presidente da República, enquanto o partido de extrema-direita Chega consolidou-se como a segunda maior força política do país.
Seguro, ex-eurodeputado e ministro, afastado da liderança do PS por Costa em 2014, explicou que a sua candidatura resultou de uma “perplexidade” face à direção que o país tomou durante o mandato do ex-primeiro-ministro. Segundo os resultados, os eleitores parecem partilhar desta preocupação.
Costa e a ascensão da extrema-direita
Quando António Costa assumiu o cargo de primeiro-ministro em 2015, Portugal destacava-se por não ter representação política de extrema-direita. Porém, o líder do Chega, André Ventura, obteve um terço dos votos nas presidenciais, beneficiando de eleitores descontentes com o aumento do custo de vida, da imigração e da perceção de corrupção política — problemas associados ao período de governação de Costa.
O especialista Riccardo Marchi, do ISCTE-IUL, afirma que “Costa é a personificação de um modelo económico baseado em mão de obra pouco qualificada e baixos salários, num contexto de subida drástica dos preços”. Para muitos analistas, a conjuntura social e económica dos últimos dez anos abriu espaço à ascensão da extrema-direita.
Entre progresso e frustração
Durante os primeiros anos do Governo Costa, Portugal recuperava da crise financeira de 2010 e o país experimentava melhorias económicas e turísticas. Contudo, o crescimento teve efeitos colaterais: o turismo e os vistos para nómadas digitais impulsionaram os preços dos imóveis, com aumentos de 124% entre 2015 e 2025, expulsando moradores das zonas urbanas centrais.
Ao mesmo tempo, o partido Chega aproveitou-se do descontentamento popular, culpando a imigração e os serviços públicos precários pelo aumento do custo de vida. Ventura conseguiu transformar uma pequena presença parlamentar numa força política nacional em apenas sete anos.
Legado político e oportunidades perdidas
O fim do mandato de Costa coincidiu com uma perceção generalizada de falta de imaginação e liderança dentro do PS, segundo o deputado Sérgio Sousa Pinto. Especialistas consideram que o partido não aproveitou a maioria absoluta no Parlamento para implementar reformas estruturais que poderiam ter mitigado o crescimento da extrema-direita.
A renúncia de Costa, em contexto de investigações judiciais envolvendo altos membros do seu Governo — embora sem provas que o implicassem —, também contribuiu para a legitimação do Chega junto do eleitorado desiludido.
Uma nova fase para a política portuguesa
Com a eleição de Seguro e a consolidação do Chega, o panorama político português entrou numa nova fase. A extrema-direita afirma agora liderar um espaço tradicionalmente periférico e pretende tornar-se uma força de governação.
Pedro Magalhães, especialista em comportamento eleitoral, alerta que o crescimento do Chega reflete a diversidade de opiniões públicas e o descontentamento com o sistema partidário tradicional, enquanto Costa Pinto, cientista político, sublinha que o partido ultranacionalista está a expandir o seu eleitorado para além dos jovens menos escolarizados, alcançando agora eleitores de direita mais amplos.
O resultado destas eleições evidencia, portanto, uma mudança de fundo no mapa político português, com implicações para a governação futura e para a forma como partidos de esquerda e direita se relacionam com o eleitorado.













