Agência federal dos EUA investiga Nike por alegada discriminação racial associada a funcionários brancos

Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego, criada pela Lei dos Direitos Civis, informou estar a investigar alegações de discriminação sistémica contra funcionários e candidatos brancos em decisões relacionadas com contratações, despedimentos, programas de estágio e mentoria

Francisco Laranjeira

A agência federal americana responsável pela fiscalização das práticas de contratação abriu uma investigação à Nike por alegadas práticas discriminatórias contra trabalhadores e candidatos brancos no âmbito das suas políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). De acordo com o ‘New York Times’, a Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego dos Estados Unidos considera existirem indícios de discriminação racial intencional associada a iniciativas internas da empresa.

A Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego, criada pela Lei dos Direitos Civis, informou estar a investigar alegações de discriminação sistémica contra funcionários e candidatos brancos em decisões relacionadas com contratações, despedimentos, programas de estágio e mentoria, bem como iniciativas de desenvolvimento de liderança e progressão de carreira.



Trata-se da primeira vez que a comissão admite formalmente que programas de diversidade no local de trabalho podem configurar discriminação contra pessoas brancas, tendo como alvo uma empresa de grande visibilidade internacional. A Nike mantém parcerias de patrocínio com atletas de renome mundial e já esteve no centro de controvérsias políticas durante o primeiro mandato de Donald Trump, nomeadamente devido a campanhas publicitárias com Colin Kaepernick.

A investigação surge num contexto de endurecimento da posição da administração Trump face às políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão. Trump regressou à Casa Branca após vencer as eleições presidenciais de 2024, tendo capitalizado a contestação a estas práticas e amplificado acusações de “racismo reverso” contra cidadãos brancos.

Segundo o ‘New York Times’, esta é a ação judicial mais relevante anunciada pela comissão desde que Andrea Lucas assumiu a presidência do organismo, cargo a partir do qual passou a priorizar a análise crítica dos programas de diversidade. A responsável afirmou recentemente que a discriminação racial e de género associada a iniciativas de DEI constitui uma das suas principais preocupações.

A investigação foi tornada pública no mesmo dia em que a comissão avançou com uma ação num tribunal federal do Missouri, com o objetivo de obrigar a Nike a cumprir uma intimação emitida em setembro. De acordo com documentos judiciais, Andrea Lucas apresentou uma queixa de discriminação contra a empresa ainda em 2024, quando exercia funções como comissária da agência.

Na altura, a comissão tinha maioria democrata; atualmente, a composição passou a ser maioritariamente republicana, por dois votos contra um. A Nike contestou a intimação e forneceu apenas respostas parciais aos pedidos de informação, segundo a documentação apresentada em tribunal.

A comissão sustenta que necessita de aceder a informação diretamente relevante para avaliar se trabalhadores, candidatos e participantes brancos em programas de formação foram sujeitos a tratamento desigual com base na raça em várias decisões de emprego. A Nike, por sua vez, afirmou ter já entregue milhares de documentos e respostas por escrito e garantiu que continuará a cooperar com a investigação, considerando a ação judicial uma escalada “surpreendente e invulgar”.

O escrutínio ocorre numa fase particularmente sensível para a empresa, que tem procurado recuperar de vários anos de estagnação nas vendas, atribuídos a erros estratégicos. A administração tem vindo a reduzir inventário antigo, acelerar o desenvolvimento de produtos e recentrar a marca no desporto e nos atletas.

A Nike tem um histórico de posicionamentos públicos em matérias políticas. Em 2017, o então diretor executivo Mark Parker criticou uma ordem executiva de Donald Trump que restringia a entrada nos EUA de cidadãos oriundos de vários países de maioria muçulmana. Mais tarde, em 2021, a empresa apresentou um plano quinquenal para aumentar a diversidade da sua força de trabalho, ligando parte da remuneração dos executivos a metas concretas, incluindo maior representação feminina em cargos de liderança e um objetivo de 35% de minorias raciais entre os trabalhadores nos EUA.

No relatório mais recente, relativo ao exercício fiscal de 2023, a Nike afirmou ter duplicado o investimento em programas de desenvolvimento profissional para minorias e ter gasto mais de mil milhões de euros em iniciativas destinadas a diversificar a sua base de fornecedores. Apesar disso, a empresa não publicou no último ano o habitual relatório de sustentabilidade corporativa, onde costuma atualizar as metas de diversidade, mantendo ainda assim o compromisso com esses objetivos.

A intimação contestada pela Nike abrange informação desde 2018, incluindo detalhes sobre programas de mentoria e estágio, bem como dados relativos às demissões previstas para 2024. Nesse ano, a empresa passou por uma reorganização profunda, com a saída do diretor executivo e a nomeação de Elliott Hill, que regressou da reforma para liderar o processo de reestruturação.

Sob a nova liderança, a Nike registou um crescimento de 1% nas vendas no último trimestre, impulsionado pela recuperação do mercado americano. Ainda assim, a empresa antecipou uma queda da receita global no trimestre seguinte, devido à persistência de vendas fracas na China, um mercado estratégico para o grupo.

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