Relógio do Juízo Final está a 85 segundos da meia-noite e assinala risco máximo para a humanidade

Decisão reflete o agravamento dos riscos associados às armas nucleares, às alterações climáticas e à erosão da confiança global, num contexto marcado por tensões geopolíticas crescentes, segundo o Bulletin of Atomic Scientists

Francisco Laranjeira

O Relógio do Juízo Final, símbolo criado para medir a proximidade da humanidade a uma catástrofe global, avançou para 85 segundos antes da meia-noite, o ponto mais próximo do apocalipse alguma vez registado. A decisão reflete o agravamento dos riscos associados às armas nucleares, às alterações climáticas e à erosão da confiança global, num contexto marcado por tensões geopolíticas crescentes, segundo o Bulletin of Atomic Scientists.

O anúncio, divulgado esta terça-feira, coloca o relógio quatro segundos mais perto da meia-noite do que no ano passado. De acordo com a AFP, a decisão surge cerca de um ano após o início do segundo mandato de Donald Trump, período durante o qual os Estados Unidos se afastaram de vários compromissos multilaterais, incluindo a saída de organizações internacionais e a adoção de ações militares unilaterais.

Num comunicado, o conselho responsável pela atualização do relógio — que inclui oito laureados com o Prémio Nobel — alerta que potências como os Estados Unidos, a Rússia e a China se tornaram “cada vez mais agressivas, adversárias e nacionalistas”, contribuindo para o colapso de entendimentos globais duramente conquistados desde o final da Guerra Fria.

Ameaça nuclear e colapso da cooperação internacional

Entre os fatores que mais pesaram na decisão está o risco de uma nova corrida ao armamento nuclear. O conselho sublinha que o tratado New START, que limita os arsenais nucleares de Washington e Moscovo, está prestes a expirar, ao mesmo tempo que a administração americana promove um ambicioso sistema de defesa antimíssil conhecido como “Golden Dome”, que poderá acelerar a militarização do espaço.

Continue a ler após a publicidade

Para os cientistas, a degradação dos mecanismos de controlo de armamento enfraquece a arquitetura global de segurança e aumenta o risco de erro de cálculo num cenário internacional cada vez mais fragmentado. Segundo a AFP, esta lógica de competição entre grandes potências, em que “o vencedor leva tudo”, mina a cooperação necessária para reduzir o perigo de um conflito nuclear de grandes dimensões.

Clima e desinformação como riscos sistémicos

O conselho do Relógio do Juízo Final destacou também os níveis recorde de emissões de dióxido de carbono, num momento em que vários países recuam nas políticas de combate às alterações climáticas. O aquecimento global continua a manifestar-se através de fenómenos extremos, como secas, ondas de calor e inundações, sem que exista uma resposta internacional coordenada à altura do problema.

Continue a ler após a publicidade

Paralelamente, os cientistas alertam para o que descrevem como um “Armagedão da informação”. Maria Ressa, jornalista filipina e vencedora do Prémio Nobel da Paz, afirmou que a proliferação de desinformação, impulsionada por tecnologias que recompensam a polarização, está a corroer a confiança pública e a agravar todas as outras crises globais.

Daniel Holz, presidente do conselho de ciência e segurança do grupo, alertou que uma abordagem de soma zero nas relações internacionais aumenta a probabilidade de todos perderem, num mundo cada vez mais dividido entre blocos rivais.

Um símbolo criado na era nuclear

Fundado por cientistas ligados ao Projeto Manhattan, entre os quais Albert Einstein e Robert Oppenheimer, o Bulletin of Atomic Scientists criou o relógio em 1947, quando o marcou inicialmente a sete minutos da meia-noite. O ponto mais distante foi registado em 1991, no final da Guerra Fria, quando o marcador recuou para 17 minutos antes da meia-noite.

Nos últimos anos, face à aceleração das crises globais, o relógio passou a ser ajustado em segundos, e não em minutos. Os cientistas sublinham que o avanço não é irreversível e defendem que o relógio pode recuar se os líderes mundiais retomarem a cooperação internacional e enfrentarem de forma concertada os riscos existenciais que ameaçam a humanidade.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.