Presidenciais: Sondagens e empates técnicos impulsionaram voto útil em Seguro, apontam especialistas

O forte mediatismo das sondagens durante a primeira volta das eleições presidenciais teve um impacto relevante nas escolhas dos eleitores, contribuindo para a concentração do chamado voto útil em António José Seguro.

Executive Digest com Lusa

O forte mediatismo das sondagens durante a primeira volta das eleições presidenciais teve um impacto relevante nas escolhas dos eleitores, contribuindo para a concentração do chamado voto útil em António José Seguro. A influência dos estudos de opinião foi particularmente visível num contexto marcado por empates técnicos persistentes e por uma perceção generalizada de fraca diferenciação política entre vários candidatos, fatores que, segundo especialistas, acabaram por orientar a decisão de muitos eleitores nos dias finais da campanha.

De acordo com uma análise sustentada por vários especialistas ouvidos pelo Público, as sondagens não explicam, por si só, o resultado, mas funcionaram como um elemento catalisador num processo de decisão tardio, em que muitos eleitores procuraram maximizar a utilidade do seu voto perante a incerteza quanto aos candidatos mais bem posicionados para passar à segunda volta.

João António, diretor do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop) da Universidade Católica Portuguesa, identifica dois momentos distintos no comportamento das sondagens. Até ao período do Natal, as intenções de voto favoreciam Marques Mendes, com estudos do Cesop, a 15 de dezembro, e da Intercampus, a 18 de dezembro, a apontarem empates entre André Ventura e o candidato apoiado pelo PSD, que surgia como vencedor em todos os cenários de segunda volta. Contudo, após o debate entre Marques Mendes e Gouveia e Melo, a 22 de dezembro, que “é possível que tenha tido influência no resultado final”, iniciou-se um segundo período em que outras candidaturas ganharam protagonismo. “As pessoas reúnem-se, trocam informação e isso tenderá a ter efeito no sentido de concentrar o voto em três figuras”, explicou, referindo-se a António José Seguro, André Ventura e João Cotrim Figueiredo.

Embora a maioria das sondagens não antecipasse a ordem final nem os 31% alcançados por Seguro, os estudos começaram a consolidar a perceção de que a disputa pelos primeiros lugares se restringia a esse trio. Algumas projeções chegaram mesmo a admitir a possibilidade de Cotrim Figueiredo passar à segunda volta, com a Pitagórica a colocar, já a 14 de janeiro, Seguro na liderança, seguido de Ventura e Cotrim Figueiredo. Para João António, este ajustamento progressivo das sondagens ao resultado final de 18 de janeiro é comum em processos eleitorais e reflete o peso das decisões de última hora. “Provavelmente também por efeito das sondagens”, muitos eleitores “escolheram Seguro” por considerarem que “não seria útil votar noutros candidatos”.

António Gomes, diretor da Gfk Metris, corrobora esta leitura, sublinhando que “a última semana foi bastante mexida no processo de decisão do eleitor”, com uma procura crescente por “alternativas que deem utilidade ao seu voto” num cenário de empates técnicos. Na sua perspetiva, as sondagens tornaram-se protagonistas precisamente porque não havia um candidato claramente destacado, sendo ainda agravada a situação pela falta de diferenciação política, que poderá ter levado os eleitores a valorizar “traços de personalidade”. O sociólogo admite igualmente que as polémicas envolvendo Cotrim Figueiredo na reta final da campanha podem ter influenciado escolhas, reconhecendo que “pode ter havido um voto útil” em favor de Seguro, inclusive fora do eleitorado tradicional do PS.

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Quanto à segunda volta, os especialistas apontam para uma vitória de António José Seguro, ainda que alertem para o risco de redução da vantagem caso se verifique uma menor mobilização dos seus eleitores. António Salvador, diretor da Intercampus, recorda que as sondagens devem ser lidas como “retratos do momento” e que o aumento do número de indecisos já indiciava um movimento previsível de voto útil. Apesar de reconhecerem um “significado mediático excecional” das sondagens, os especialistas rejeitam a sua proibição durante a campanha eleitoral, defendendo que mais informação permite decisões mais conscientes. Ainda assim, sublinham que a chamada “abstenção por certeza de vitória” pode encurtar distâncias, embora considerem que “a vitória de Seguro não está em causa”, dependendo, em grande medida, da capacidade de mobilização até ao dia da votação.

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