Reservas baixas e frio intenso colocam Europa sob pressão nos preços do gás: o que está em causa?

Após a vaga de frio registada no início de janeiro, as reservas desceram para 55,4 mil milhões de metros cúbicos a 13 de janeiro, ampliando novamente o desvio face a 2025

Francisco Laranjeira

A Europa prepara-se para uma primavera marcada por preços elevados do gás natural, num contexto de maior vulnerabilidade energética provocado por níveis de armazenamento significativamente mais baixos e por uma vaga de frio mais intensa do que o previsto. Segundo o ‘El Economista’, a combinação destes fatores está a aumentar a volatilidade dos mercados e a alimentar receios sobre a capacidade de gestão das reservas até ao final do inverno.

No início de novembro de 2025, a Europa dispunha de 87,4 mil milhões de metros cúbicos de gás armazenado, cerca de 14 mil milhões abaixo do registado no mesmo período do ano anterior. Já a 1 de janeiro de 2026, os níveis tinham caído para 64,9 mil milhões, mantendo-se 11,7 mil milhões abaixo da média anual. Após a vaga de frio registada no início de janeiro, as reservas desceram para 55,4 mil milhões de metros cúbicos a 13 de janeiro, ampliando novamente o desvio face a 2025.

Frio agrava consumo e alimenta volatilidade

Este ponto de partida mais apertado explica a recente instabilidade nos mercados. Os contratos futuros do gás natural TTF, a principal referência europeia negociada no mercado holandês, subiram mais de 30% na semana terminada a 16 de janeiro, impulsionados por previsões de temperaturas muito abaixo da média para a segunda metade do mês. O Citi sublinha que a subida foi amplificada pela cobertura recorde de posições vendidas por fundos de investimento, intensificando a reação dos preços.

O impacto das temperaturas é mensurável. De acordo com cálculos do Citi, a procura europeia de gás aumenta, em média, 3,3 mil milhões de metros cúbicos por mês por cada grau Celsius de descida quando as temperaturas se situam entre zero e cinco graus. Num cenário em que fevereiro e março de 2026 repliquem o frio de 2018, a procura adicional acumulada no primeiro trimestre poderá atingir cerca de 20 mil milhões de metros cúbicos.

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Risco localizado, mas com países mais expostos

Nesse cenário, as reservas europeias poderiam cair para entre 15% e 20% da capacidade no final de março, face a uma previsão inicial próxima dos 38%. Em termos absolutos, isso significaria terminar o inverno com cerca de 21 a 22 mil milhões de metros cúbicos, um nível que historicamente obriga a um esforço significativo na fase de reenchimento dos armazenamentos, que arranca em abril.

Tanto o Citi como o Instituto de Estudos de Energia de Oxford consideram improvável que a Europa, no seu conjunto, fique sem gás antes do fim do inverno. O risco é sobretudo localizado. A distribuição desigual das capacidades de armazenamento e os constrangimentos da infraestrutura tornam alguns países mais vulneráveis. O instituto de Oxford alerta, em particular, para a situação de França, caso o frio persista e as retiradas de gás continuem a um ritmo elevado.

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Herança da crise energética e mudança de regras

A origem deste quadro remonta à crise energética de 2022, quando a União Europeia impôs metas obrigatórias de armazenamento até 90% antes do inverno. Com um mercado mais diversificado, o gás russo praticamente afastado e o GNL a assumir um papel central, Bruxelas optou por flexibilizar essas exigências a partir de 2025, atribuindo maior peso aos sinais do mercado.

Como resultado, os Estados-membros aceitaram níveis de risco mais elevados em troca de custos de curto prazo mais baixos. De acordo com o ‘El Economista’, o sistema tornou-se mais flexível, mas também mais exposto, com menor margem de segurança e maiores dependências externas.

GNL sustenta a oferta, mas o verão preocupa

Apesar das tensões, a oferta tem demonstrado resiliência. No quarto trimestre de 2025, as importações europeias de gás natural liquefeito aumentaram 30% face ao ano anterior, compensando a quebra do fornecimento por gasoduto da Rússia e a maior utilização das reservas. O Instituto de Estudos de Energia de Oxford destaca que o aumento da produção de GNL foi generalizado e crucial para responder à procura num contexto de menor oferta tradicional.

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A estrutura de preços reflete esta dualidade. Desde meados de janeiro, os contratos futuros do TTF para o verão de 2026 estão a ser negociados com um prémio face aos contratos do inverno de 2026/27, uma situação pouco habitual nesta fase do ano. O Citi interpreta esta inversão como uma reação excessiva do mercado e antecipa um regresso dos diferenciais a território negativo quando diminuírem os receios em torno das reservas.

O verão, no entanto, promete ser exigente. Entre abril e novembro de 2025, a Europa injetou cerca de 51 mil milhões de metros cúbicos nos seus armazenamentos. Se o inverno terminar com níveis próximos dos 22 mil milhões, atingir a meta de 80% de capacidade exigirá injeções superiores às do verão passado, num contexto em que não se espera uma recuperação da produção europeia nem das importações por gasoduto. O mercado antecipa uma forte dependência do GNL no verão de 2026, o que deverá manter os preços elevados.

Geopolítica como fator decisivo

O principal risco capaz de desequilibrar este cenário não é meteorológico, mas geopolítico. O Citi alerta que uma escalada séria das tensões no Médio Oriente, nomeadamente entre o Irão e os Estados Unidos ou Israel, poderia elevar o preço do TTF para cerca de 42 euros por megawatt-hora no curto prazo, o que representaria um aumento de cerca de 14%.

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