Mais de um milhão de euros sob suspeita: MP investiga Casa Pia por alegada violação de sanções à Rússia

Ministério Público acusa o clube lisboeta e um dos seus dirigentes de crimes de branqueamento, falsificação de documento e violação de medidas restritivas

Revista de Imprensa

O Casa Pia, equipa da principal liga do futebol português, terá recebido mais de um milhão de euros provenientes de um clube russo sancionado e participado num esquema destinado a ocultar a origem do dinheiro junto do banco Montepio, com o objetivo de contornar as sanções impostas pela União Europeia. O Ministério Público acusa o clube lisboeta e um dos seus dirigentes de crimes de branqueamento, falsificação de documento e violação de medidas restritivas.

De acordo com o jornal ‘Público’, a acusação sustenta que o Casa Pia e Tiago Lopes, gerente executivo responsável pela transferência e arguido no processo, tinham plena consciência de que o negócio violava diretamente as sanções europeias adotadas após a invasão da Crimeia. O objetivo seria evitar o congelamento de fundos do FC Akhmat, clube russo sediado na Tchetchénia e detido por Ramzan Kadyrov, aliado próximo de Vladimir Putin e alvo de sanções internacionais.

Transferência de Felippe Cardoso na origem do caso

O caso remonta a julho de 2024, quando o FC Akhmat manifestou interesse na contratação de Felippe Cardoso, avançado do Casa Pia desde a época 2022/23. As negociações culminaram num acordo de 1,5 milhões de euros, a pagar em duas prestações, sendo a primeira no valor de um milhão de euros.

Segundo a acusação, ainda durante o processo negocial o clube português foi alertado de que a transferência poderia violar as sanções europeias. A 7 de agosto de 2025, o Casa Pia foi informado de que o pagamento não seria efetuado diretamente pelo clube russo, mas por uma empresa registada nos Emirados Árabes Unidos, a Sila Marketing. Um responsável dessa entidade explicou por escrito que o nome do FC Akhmat não deveria ser comunicado ao banco, sob pena de os fundos serem bloqueados.

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Emails detalham circuito financeiro

Quando o Montepio identificou uma transferência de 1,02 milhões de euros com origem nos Emirados Árabes Unidos, o Casa Pia apresentou uma declaração formal indicando desconhecer o motivo pelo qual o pagamento tinha sido feito por uma entidade terceira. O Ministério Público considera, no entanto, que o clube tinha plena noção da proveniência do dinheiro e das ilegalidades associadas.

Segundo o ‘Público’, a acusação recorre a emails trocados entre a Sila Marketing e a equipa jurídica do Casa Pia para demonstrar o esquema financeiro. Numa dessas mensagens é descrito um circuito em cadeia, no qual o FC Akhmat transferia fundos para a Sila Marketing, que por sua vez os encaminhava através de outra empresa até ao credor final, garantindo o distanciamento entre o dinheiro e o Estado sancionado.

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Em troca, a Sila Marketing receberia uma comissão de 7,5% sobre os montantes transferidos, ao abrigo de um acordo celebrado a 25 de junho de 2024 com o clube russo, precisamente para evitar bloqueios bancários.

Acusações e defesa do clube

Tiago Lopes está acusado de três crimes: violação de medidas restritivas, branqueamento e falsificação ou contrafação de documento. O Casa Pia responde pelos mesmos crimes, podendo ambos seguir a julgamento caso não haja alterações na fase de instrução.

O clube nega todas as imputações. Em resposta enviada ao jornal diário, o Casa Pia garante ter atuado de boa-fé, de forma transparente, e dentro da legalidade, sublinhando que a transferência foi registada na plataforma oficial da FIFA e anunciada publicamente. O emblema lisboeta sustenta ainda que o FC Akhmat não é uma entidade sancionada pela União Europeia e rejeita a existência de prova sólida que demonstre o controlo do clube por Ramzan Kadyrov.

Presidente ilibado no inquérito

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O processo resultou também em arquivamentos. O presidente do Casa Pia, Vítor Franco, não foi acusado, apesar de ter assinado documentos relacionados com a transferência. O Ministério Público concluiu que o dirigente atuou a pedido de Tiago Lopes, sem poder de decisão nem conhecimento dos contornos do negócio, afastando qualquer intenção criminosa da sua parte.

Já no caso do gerente executivo, a acusação aponta para dolo e intencionalidade na ocultação da origem do dinheiro e na tentativa de contornar as sanções impostas ao clube russo.

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