Proibição da venda de álcool não chega e moradores pedem fim do consumo nas ruas de Lisboa

A proposta da Câmara Municipal de Lisboa para limitar os horários de venda de bebidas alcoólicas destinadas ao consumo no espaço público está a gerar forte contestação entre associações de moradores, comerciantes e responsáveis autárquicos, que consideram a medida insuficiente para resolver os problemas associados à vida noturna na capital.

Executive Digest

A proposta da Câmara Municipal de Lisboa para limitar os horários de venda de bebidas alcoólicas destinadas ao consumo no espaço público está a gerar forte contestação entre associações de moradores, comerciantes e responsáveis autárquicos, que consideram a medida insuficiente para resolver os problemas associados à vida noturna na capital. O plano apresentado pelo presidente da autarquia, Carlos Moedas, prevê a proibição da venda de álcool a partir das 23h entre domingo e quinta-feira e da meia-noite às sextas-feiras, sábados e vésperas de feriados, proposta que será discutida em reunião de vereação.

Segundo avança o Público, várias estruturas representativas da sociedade civil defendem que a simples restrição dos horários de venda não responde ao essencial do problema, uma vez que o consumo de bebidas alcoólicas na via pública continuará a ser permitido. Entre os críticos está a Plataforma Lisboa – As Nossas Vozes, que reúne cerca de duas dezenas de associações de moradores e considera que apenas a proibição total do consumo de álcool nas ruas poderá combater eficazmente o ruído, a insegurança e a degradação do espaço urbano em zonas de elevada pressão turística.

A mesma posição é partilhada pela Associação de Comerciantes do Bairro Alto e pela presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Almeida, que sublinha que a redução dos horários de venda já estava prevista no regulamento municipal aprovado em 2016 e considera a aplicação da medida tardia e insuficiente. Para estes responsáveis, manter o consumo na rua significa perpetuar os principais fatores de perturbação da vida dos residentes, nomeadamente o barulho noturno, a insalubridade e a sensação de insegurança.

Num comunicado, a Plataforma Lisboa acusa a autarquia de não enfrentar o fenómeno do turismo alcoólico, que considera responsável pela expulsão de moradores, pela degradação do espaço público e pelo colapso da função residencial em bairros como o Bairro Alto, a Bica e o Cais do Sodré. O coletivo classifica a proposta municipal como “tardia” e “manifestamente desajustada” à dimensão do problema, defendendo que o consumo de álcool na via pública é o principal gerador de desordem urbana.

A ex-ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz, que integra a plataforma, considera que a limitação horária não impedirá quem pretende beber na rua de o fazer, alertando que as pessoas continuarão a levar as suas próprias bebidas para o espaço público. A jurista rejeita ainda a ideia de que falte enquadramento legal para avançar com uma proibição do consumo, defendendo que a legislação existente, nomeadamente a lei do ruído e as competências administrativas dos municípios, permite adotar medidas semelhantes às já aplicadas em cidades como Barcelona, Madrid, Amesterdão, Bruges ou Berlim.

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Também Isabel Sá da Bandeira, da associação Aqui Mora Gente, manifesta ceticismo quanto à eficácia da proposta de Moedas, apontando dúvidas sobre a capacidade de fiscalização por parte da autarquia. Apesar de reconhecer que a iniciativa segue a direção certa, considera-a apenas “um passinho” e alerta que, sem enfrentar diretamente o consumo na rua, os problemas de violência, vandalismo, ruído e sujidade tenderão a manter-se, abrindo a porta a novos conflitos entre residentes, comerciantes e poder político.

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