Quando Vladimir Putin lançou a invasão da Ucrânia, prometeu aos russos que “fariam tudo de novo”, evocando a marcha soviética para oeste e a vitória sobre a Alemanha nazi. Quase quatro anos depois, o Presidente russo cumpriu apenas parte dessa promessa: o conflito já dura mais do que a campanha da União Soviética contra os nazis, sem que Moscovo tenha conseguido uma vitória decisiva.
A guerra na Ucrânia ultrapassou esta semana os 1.418 dias que os soviéticos levaram a empurrar as forças alemãs de Moscovo até Berlim, um marco simbólico que sublinha o fracasso das expectativas iniciais do Kremlin. Segundo o ‘POLITICO’, o que deveria ter sido uma operação rápida transformou-se numa guerra de desgaste extenuante, com ganhos territoriais limitados e custos humanos elevados.
Ao longo de quase quatro anos de combates, a Rússia conquistou apenas uma pequena parte do território ucraniano, ao custo de cerca de 1,1 milhões de baixas russas e de uma crescente instabilidade interna. Este mês, um ataque com mísseis ucranianos deixou cerca de 600 mil pessoas sem eletricidade na região fronteiriça russa de Belgorod, expondo a vulnerabilidade do país longe da linha da frente.
Alianças sob pressão num contexto internacional adverso
Enquanto Moscovo permanece atolada na Ucrânia, a rede global de alianças que Putin levou duas décadas a construir mostra sinais de erosão, num momento em que enfrenta um presidente americano, Donald Trump, descrito como inesperadamente beligerante. De acordo com o ‘POLITICO’, o Kremlin parece cada vez mais incapaz de impedir que os seus aliados sejam enfraquecidos ou afastados um a um.
No Médio Oriente, a posição russa deteriorou-se desde o final de 2024, com o colapso do regime de Bashar al-Assad na Síria, que privou Moscovo de um parceiro-chave na região. Já na América do Sul, a Rússia mostrou-se impotente para proteger Nicolás Maduro, na Venezuela, capturado pelos Estados Unidos no início deste mês, apesar da proximidade política entre Caracas e Moscovo.
A situação agravou-se com a apreensão, sem precedentes, de um petroleiro russo por parte das autoridades americanas, um episódio que reforçou a perceção de fragilidade do poder russo no plano internacional.
Irão, desconfiança e críticas internas
Há apenas um ano, Putin assinou um acordo de parceria estratégica de 20 anos com o Irão. Hoje, o regime de Teerão, que forneceu drones Shahed à Rússia para a guerra na Ucrânia, enfrenta protestos internos e a possibilidade de uma intervenção externa, admitida por Trump. Apesar de relatos de apoio militar russo recente, analistas sublinham que Teerão não espera proteção total de Moscovo em caso de crise grave.
“Os iranianos não têm ilusões de que, se a situação se tornar realmente crítica, a Rússia simplesmente se afastará, como fez com Bashar al-Assad”, afirmou Nikita Smagin, especialista em relações Rússia-Irão.
Esta leitura é partilhada por vozes críticas dentro da própria Rússia. “Uma era inteira está a chegar ao fim”, escreveu um bloguer militar pró-guerra sob o pseudónimo de Maxim Kalashnikov, criticando a liderança russa por ter investido mais na imagem de grande potência do que na sua consolidação real. “A promessa de que ‘podemos fazer isto outra vez’ falhou”, concluiu.
Kremlin nega fragilidade, mas evita sinais de recuo
Antigos diplomatas russos consideram que a ideia de uma aliança sólida liderada por Moscovo sempre foi, em grande parte, uma construção propagandística. “Nem a Venezuela nem o Irão fazem parte de qualquer império russo”, afirmou Boris Bondarev, ex-diplomata do Kremlin, defendendo que, após a invasão da Ucrânia, era essencial para Moscovo mostrar que não estava isolada.
Apesar dos sinais de enfraquecimento, Bondarev alerta para que não se espere um abrandamento da postura russa. Pelo contrário, o Kremlin procurará demonstrar força, sobretudo na Ucrânia, como fez recentemente com o lançamento de um míssil hipersónico Oreshnik.
“Mesmo que esteja fraca, a Rússia tentará mostrar que é forte”, advertiu, sublinhando que a humilhação externa pode traduzir-se numa escalada, e não num recuo, da estratégia de Putin.














