Durante anos, a Rússia conseguiu contornar grande parte das sanções impostas pelo Ocidente para travar a sua indústria petrolífera, recorrendo a frotas fantasma, países terceiros e esquemas comerciais alternativos. Esse equilíbrio poderá agora estar em risco. Um dos principais canais utilizados por Moscovo para escoar petróleo para a Europa — a rota turca — começa a dar sinais claros de bloqueio.
Com os principais gasodutos e oleodutos fechados, o crude russo destinado à União Europeia dispõe apenas de duas vias: o transporte marítimo, com volumes residuais, e o corredor do TurkStream. Esta infraestrutura liga a Rússia à Turquia, que por sua vez está conectada ao continente europeu através da rede associada ao gasoduto Nabucco, abastecendo países como Grécia, Bulgária, Áustria e República Checa, mas sobretudo a Eslováquia e a Hungria, os Estados-membros mais determinados em manter a compra de energia russa. Embora concebida essencialmente para gás, a rota utilizada para o petróleo é praticamente idêntica, segundo o ‘El Economista’.
A Turquia como eixo da energia russa
Ao longo dos últimos anos, a Turquia consolidou-se como um centro estratégico para a energia russa. Após o encerramento de outras rotas, as exportações de crude russo para território turco dispararam em 2022, passando de cerca de 90 mil barris por dia para 200 mil em apenas um ano. Em 2023, registaram-se picos próximos dos 400 mil barris diários, números que oscilaram em 2024 e começaram a recuar em 2025, antes de entrarem em colapso em outubro, na sequência de novas sanções.
Os dados mais recentes indicam uma quebra abrupta. Informações da ‘Kpler’ revelam uma queda de cerca de 100 mil barris por dia num único mês, reduzindo as compras turcas para perto de 200 mil barris diários. As empresas do país estão a restringir a aquisição de crude Ural por receio de sanções, num contexto agravado pelos ataques ucranianos a refinarias russas.
Este recuo é particularmente relevante tendo em conta que, em 2023, cerca de 5,16 milhões de toneladas de petróleo de origem russa destinadas à Europa terão passado pela Turquia. O Centro de Investigação em Energia e Ar Limpo alertou que, no início de 2024, a UE importou quase três mil milhões de euros em produtos petrolíferos provenientes de portos turcos que processavam crude russo. Segundo esse relatório, produtos eram misturados em território turco para ocultar a sua origem antes de serem reexportados para a UE.
Sanções começam a produzir efeitos
Especialistas admitem que este poderá ser apenas o primeiro sinal de uma mudança mais profunda. Para já, a Turquia tem compensado a redução das importações russas com petróleo proveniente de outros países, como o Iraque e o Cazaquistão, cujas exportações combinadas elevaram a oferta não russa para mais de 129 mil barris por dia.
A diferença face ao passado reside na eficácia das sanções americanas. Desta vez, as medidas atingiram diretamente gigantes como a Rosneft e a Lukoil, que exportam em conjunto cerca de 3,1 milhões de barris por dia. As novas regras implicam que qualquer empresa que negocie com estas petrolíferas fique exposta a sanções dos Estados Unidos, colocando em risco o acesso ao sistema financeiro e à infraestrutura económica americana.
A S&P Global aponta ainda para a Índia como peça-chave neste novo equilíbrio. Na semana em que as sanções foram impostas, entraram em portos estrangeiros cerca de 20 milhões de barris de crude russo, abaixo da média das semanas anteriores. Desse total, 12 milhões tiveram como destino a Índia, embora também em queda significativa. A suspensão das importações por parte da Reliance, um dos maiores compradores mundiais, foi interpretada como um sinal de mudança estrutural no mercado.
Receitas russas em queda acentuada
O impacto já se reflete nas contas de Moscovo. Segundo a Agência Internacional de Energia, as receitas petrolíferas russas caíram cerca de 3,6 mil milhões de euros, para perto de 11 mil milhões de euros, o nível mais baixo desde o início da guerra na Ucrânia e desde a pandemia da Covid-19.
Apesar de não ser possível excluir que a Rússia venha a encontrar novas formas de contornar as sanções, o efeito imediato é claro. Por agora, o golpe é real e sente-se com particular intensidade na Turquia, uma encruzilhada energética entre a Europa e a Ásia que Ancara idealizou como ponte entre uma Rússia isolada e uma Europa em confronto. Essa visão poderá agora ter de ser revista.














