Gripe começou antes do tempo e ameaça agravar-se após o Natal, alertam especialistas

Especialistas alertam que uma nova variante do vírus da gripe A, mais transmissível e não incluída na vacina desta temporada, está na origem do aumento precoce de infeções e dos tempos de espera muito acima do recomendado em vários hospitais portugueses

Francisco Laranjeira

A época da gripe chegou mais cedo este ano e está a provocar uma pressão acrescida sobre o Serviço Nacional de Saúde, sobretudo nas urgências hospitalares. Especialistas alertam que uma nova variante do vírus da gripe A, mais transmissível e não incluída na vacina desta temporada, está na origem do aumento precoce de infeções e dos tempos de espera muito acima do recomendado em vários hospitais portugueses.

Nas últimas semanas, os constrangimentos nas urgências voltaram a agravar-se, com atrasos significativos no atendimento, em particular na região de Lisboa e Vale do Tejo. Segundo a ‘Euronews’, a antecipação da época gripal foi de três a quatro semanas, impulsionada por uma alteração do vírus A (H3N2), que já se tornou dominante em alguns países europeus.



A variante agora em circulação não está contemplada nas vacinas deste ano, o que pode traduzir-se num aumento da incidência e da pressão sobre os sistemas de saúde. Identificada recentemente no hemisfério norte, esta estirpe está associada a um crescimento invulgarmente precoce das infeções na Europa.

O virologista Pedro Simas explica que estas alterações resultam da chamada deriva antigénica, um processo contínuo de pequenas mutações que permite ao vírus escapar parcialmente à imunidade adquirida por infeções ou vacinas anteriores. Embora as vacinas sejam ajustadas todos os anos às variantes esperadas, estas mudanças podem reduzir a eficácia na prevenção da infeção.

Ainda assim, os especialistas sublinham que não há, até ao momento, indícios de maior gravidade clínica face à gripe sazonal habitual do subtipo H3N2. O principal risco mantém-se concentrado nos grupos vulneráveis, como pessoas com mais de 65 anos e doentes com patologias crónicas.

Maior transmissibilidade e sintomas habituais

A nova variante apresenta uma maior capacidade de disseminação. Enquanto uma gripe considerada “normal” tem um índice de transmissão médio de 1,2, esta pode atingir 1,4, o que significa um aumento significativo do número de contágios. Apesar disso, os sintomas permanecem os típicos da gripe, incluindo febre elevada, tosse seca, dores musculares e articulares, fadiga intensa e arrepios.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças apelou aos países europeus para acelerarem a vacinação, alertando para a possibilidade de uma época gripal mais severa, sobretudo se a adesão vacinal for baixa. A Direção-Geral da Saúde também reconheceu que este é o momento ideal para a vacinação dos grupos elegíveis, salientando que, mesmo não prevenindo totalmente a infeção, a vacina continua a reduzir o risco de quadros graves.

Urgências sob forte pressão

Em Portugal, o pico da gripe é esperado após as festividades, um período propício à transmissão devido ao aumento de contactos em espaços fechados. Esta tendência já se reflete nos serviços de urgência, com tempos de espera muito superiores aos recomendados.

No hospital Amadora-Sintra, os doentes urgentes chegaram a aguardar mais de 15 horas para serem observados. Situações semelhantes, embora menos graves, verificaram-se noutros hospitais do país, incluindo Garcia de Orta, Beatriz Ângelo, Santa Maria, São João e Santo António.

Segundo os critérios de triagem, os tempos observados excedem largamente os limites clínicos recomendados, num contexto em que a procura das urgências em Portugal é mais do dobro da média da OCDE. Dados da Entidade Reguladora da Saúde indicam que uma parte significativa das admissões corresponde a casos pouco urgentes ou não urgentes.

Falhas estruturais agravam impacto da gripe

Para Bernardo Gomes, médico de Saúde Pública, a fragilidade do sistema perante o pico da gripe está associada à escassez de recursos humanos e a infraestruturas subdimensionadas, problemas estruturais que se repetem todos os anos. Embora reconheça a utilidade dos planos de contingência, alerta que estes não resolvem défices crónicos, como a falta de médicos de família, a insuficiência dos cuidados de saúde primários e a pressão causada por internamentos sociais.

O Governo reconheceu que as próximas semanas serão exigentes e anunciou um reforço de meios no SNS. A ministra da Saúde garantiu que as instituições estão preparadas para responder ao aumento de casos, confirmando o alargamento de horários nos centros de atendimento clínico, o reforço de ambulâncias no INEM e a disponibilização de camas sociais para aliviar a pressão hospitalar.

Mortalidade em excesso preocupa autoridades

O aumento da circulação do vírus da gripe coincidiu com um crescimento da mortalidade no início de dezembro. Dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge indicam um excesso de mortalidade, sobretudo entre pessoas com mais de 65 anos, em particular na região Norte. Entre 1 e 10 de dezembro, registaram-se cerca de 600 mortes adicionais face ao período homólogo, um aumento de cerca de 18%.

As autoridades admitem que a chegada antecipada da gripe, aliada ao frio intenso registado no início do mês, é a explicação mais provável para este excesso de mortalidade, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis.

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