Os negociadores dos EUA transmitiram à Ucrânia que qualquer acordo para pôr fim à guerra com a Rússia deverá incluir a retirada das forças ucranianas da região oriental de Donetsk. A posição foi comunicada durante as conversações de paz realizadas em Berlim, segundo uma fonte conhecedora do processo citada pela agência ‘Reuters’.
De acordo com essa fonte, que falou sob anonimato enquanto decorriam os momentos finais do segundo dia de negociações na capital alemã, Kiev manifestou a intenção de prosseguir as discussões. Uma segunda fonte envolvida no processo sublinhou que continuam a existir obstáculos significativos à obtenção de um entendimento sobre a questão territorial.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou que as divergências sobre concessões territoriais persistem, classificando o tema como “doloroso”. Ainda assim, afirmou acreditar que os mediadores americanos poderão ajudar a aproximar posições. “Francamente, ainda temos posições diferentes”, disse aos jornalistas, acrescentando que a Ucrânia necessita de clareza quanto às garantias de segurança antes de tomar decisões relacionadas com as linhas da frente do conflito.
Zelensky rejeitou a ideia de que Washington tenha imposto exigências diretas, frisando que Kiev encara as propostas territoriais como exigências da Federação Russa, transmitidas através dos Estados Unidos, refere a ‘Reuters’.
Pressão americana e garantias de segurança
As conversações em Berlim envolvem o enviado americano Steve Witkoff, o conselheiro presidencial Jared Kushner e líderes europeus, num contexto de crescente pressão da administração de Donald Trump para que a Ucrânia aceite concessões com vista ao fim da guerra iniciada pela invasão russa em 2022.
Apesar dessa pressão, responsáveis ucranianos mantêm um tom público cautelosamente otimista. Rustem Umerov, secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, afirmou que os últimos dois dias de negociações foram “construtivos e produtivos”, com progressos reais, sublinhando o papel da equipa americana no apoio a uma solução duradoura.
Um responsável dos EUA indicou que o acordo em discussão prevê garantias de segurança para a Ucrânia semelhantes às do artigo 5º do Tratado da NATO, que consagra a defesa coletiva. No entanto, essas garantias não seriam permanentes. Segundo fontes citadas pela ‘Reuters’, Trump acredita que um mecanismo desse tipo poderá ser aceite por Moscovo.
As autoridades americanas afirmam ainda que cerca de 90% das questões entre a Rússia e a Ucrânia estarão resolvidas, embora reconheçam que os temas do território e da adesão à NATO continuam a ser centrais.
Território, NATO e limites da flexibilidade de Kiev
A Ucrânia indicou este domingo estar disposta a abdicar da ambição de aderir à NATO em troca de garantias de segurança ocidentais. Ainda assim, permanece incerto até que ponto as negociações avançaram sobre esta matéria ou sobre o futuro dos territórios ocupados.
O Kremlin reiterou que a não adesão da Ucrânia à NATO é uma exigência fundamental para qualquer acordo. Moscovo afirma ter anexado Donetsk, Lugansk, a Crimeia e outras regiões, embora não controle integralmente os territórios reclamados, incluindo cerca de 20% da região de Donetsk.
Internamente, Zelensky enfrenta fortes constrangimentos políticos. Uma sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev indica que três quartos dos ucranianos rejeitam concessões significativas à Rússia. Embora 72% aceitem um congelamento da linha da frente com algumas concessões, 75% consideram completamente inaceitável qualquer plano que implique mais cedências territoriais ou limitações às forças armadas sem garantias de segurança claras.
Semana decisiva para a diplomacia europeia
As negociações decorrem no início de uma semana considerada crucial para a diplomacia europeia, com uma cimeira da União Europeia agendada para quinta-feira, na qual será debatida a possibilidade de garantir um empréstimo de grande dimensão à Ucrânia com base em ativos congelados do banco central russo.
Em paralelo, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE reuniram-se em Bruxelas para discutir novas sanções contra a chamada frota paralela russa de petroleiros, num contexto de tensões persistentes entre Washington e os aliados europeus sobre segurança, migração e regulação económica, segundo a ‘Reuters’.






