O fim de uma era: Volkswagen encerra hoje a primeira fábrica na Alemanha em quase 90 anos

A Volkswagen prepara-se para fechar hoje, pela primeira vez em 88 anos, uma unidade de produção em território alemão, num passo de forte impacto simbólico para a maior economia europeia e para um dos seus setores industriais mais emblemáticos.

Pedro Gonçalves

A Volkswagen prepara-se para fechar hoje, pela primeira vez em 88 anos, uma unidade de produção em território alemão, num passo de forte impacto simbólico para a maior economia europeia e para um dos seus setores industriais mais emblemáticos. A decisão afeta a fábrica de Dresden, no leste do país, onde ainda trabalham cerca de 250 pessoas, e marca um momento histórico para o grupo automóvel alemão.

A produção na unidade deverá ser suspensa já esta terça-feira, embora a imprensa alemã admita que alguns trabalhos se prolonguem até ao final de dezembro.



Apesar de se tratar da mais pequena fábrica da Volkswagen na Alemanha, o significado do encerramento ultrapassa largamente a dimensão da unidade, conhecida como Fábrica Transparente ou Fábrica de Vidro. O espaço deixará de ter funções produtivas e será reconvertido num campus de inovação, projeto que envolve a Volkswagen, a Universidade Técnica de Dresden e o governo regional da Saxónia, com um acordo já assinado entre as partes.

Durante uma deslocação a Dresden, o presidente da Volkswagen, Thomas Schäfer, acompanhado pela representante dos trabalhadores, Daniela Cavallo, procurou clarificar o impacto laboral da decisão. Segundo foi transmitido, após os cortes de emprego anunciados, 155 trabalhadores irão permanecer ligados à Fábrica Transparente, quando anteriormente esse número era de 135.

Além disso, a administração do grupo decidiu atribuir um bónus de 30 mil euros aos trabalhadores de Dresden que aceitem ser transferidos para a fábrica principal de Wolfsburgo, numa tentativa de mitigar os efeitos sociais do encerramento.

De fábrica emblemática a centro de inovação tecnológica
A unidade de Dresden tem um percurso industrial singular dentro do grupo Volkswagen. Entre 2001 e 2016, produziu o modelo de luxo Phaeton. Mais tarde, entre 2017 e 2020, passou a fabricar o e-Golf, e, a partir de 2021, assumiu a produção do ID.3, um dos modelos elétricos estratégicos da marca.

Agora, a fábrica será transformada num centro de investigação e desenvolvimento nas áreas da inteligência artificial, microprocessadores, robótica e inovação tecnológica. O projeto prevê um investimento total de 50 milhões de euros ao longo dos próximos sete anos, repartido entre a Volkswagen e o governo da Saxónia.

O responsável regional da Volkswagen chegou mesmo a afirmar que o futuro campus “pode vir a ser a Stanford do Oriente”, numa referência à universidade norte-americana associada ao desenvolvimento tecnológico e à criação de empresas de ponta. Para já, existe apenas uma carta de intenções, estando o contrato ainda por formalizar, com o objetivo de garantir investigação de ponta e transferência de tecnologia.

Produção do ID.3 suspensa e futuro incerto para dezenas de trabalhadores
A produção do modelo ID.3 será suspensa já em janeiro. Cerca de 60 trabalhadores da unidade de Dresden continuam sem saber qual será o seu destino profissional. Caso não encontrem colocação noutras unidades do grupo, poderão permanecer em casa a receber o salário, uma vez que a Volkswagen garante emprego a todos os seus trabalhadores até 2030.

O encerramento da fábrica de Dresden insere-se num programa de cortes profundos decidido pela administração da Volkswagen, numa altura em que o grupo enfrenta uma quebra significativa nos lucros e crescente incerteza quanto à capacidade comercial dos seus modelos elétricos.

As vendas têm vindo a cair, sobretudo em mercados estratégicos como a China, enquanto a guerra aduaneira com os Estados Unidos deverá custar mais de cinco mil milhões de euros ao grupo. Ao mesmo tempo, a procura por veículos elétricos não tem acompanhado o ritmo dos investimentos avultados exigidos pela transição climática e digital no setor automóvel.

O plano global da Volkswagen prevê a eliminação de 35 mil postos de trabalho. Na Alemanha, algumas fábricas já recorrem ao layoff devido à falta de encomendas, enquanto outras estão em risco de encerramento. Dresden torna-se, assim, a primeira unidade a fechar portas.

Em contraste com o cenário alemão, a fábrica da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, no distrito de Setúbal, encontra-se num percurso distinto. A unidade portuguesa beneficia de investimentos de centenas de milhões de euros, que incluem a construção de um novo edifício para a secção de pintura.

O plano industrial prevê a transição do atual modelo T-Roc, de combustão interna, para uma versão híbrida em 2026, seguida da produção do ID.1, um modelo 100% elétrico de baixo custo com o qual a Volkswagen pretende conquistar o mercado de massas dos veículos elétricos.

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