Mapas, militares e influência: como Pequim está a reabrir a questão territorial com Moscovo

Apesar da parceria estratégica cada vez mais estreita entre Pequim e Moscovo, a maior fronteira terrestre do mundo pode tornar-se vulnerável perante um crescente desequilíbrio de poder

Francisco Laranjeira

Movimentos recentes da China estão a reacender especulações sobre potenciais ambições territoriais no Extremo Oriente russo, um tema sensível que remonta ao chamado “Século de Humilhação”. Apesar da parceria estratégica cada vez mais estreita entre Pequim e Moscovo, analistas citados pela ‘Newsweek’ alertaram que a maior fronteira terrestre do mundo pode tornar-se vulnerável perante um crescente desequilíbrio de poder.

Alterações nos mapas oficiais da China, publicadas em 2023, voltaram a colocar o foco na região. O Ministério do Meio Ambiente determinou que novas cartas geográficas deveriam identificar cidades da Sibéria Oriental, como Vladivostok, pelos seus nomes oficiais chineses. A representação de uma ilha na confluência dos rios Ussuri e Amur — parte de uma disputa resolvida em 2008 — como território inteiramente chinês também levantou questões. Para além disso, o aumento de compras de terrenos agrícolas e contratos de arrendamento de longa duração do lado russo da fronteira tem causado inquietação local.



Nacionalismo latente e equilíbrio delicado na parceria estratégica

Setores nacionalistas chineses defendem abertamente a devolução dos territórios que a dinastia Qing cedeu à Rússia czarista no século XIX. Contudo, Pequim tem procurado minimizar o assunto, reiterando a prioridade dos laços estratégicos com Vladimir Putin, que surgiu ao lado de Xi Jinping no desfile do Dia da Vitória, em junho, na Praça Tiananmen.

A China tem sido um dos pilares económicos da Rússia desde o início da invasão da Ucrânia, comprando grandes volumes de petróleo e gás e sustentando as finanças de guerra de Moscovo. Em contrapartida, a Rússia beneficia de comércio em níveis recorde e da utilização crescente do yuan, que reduz o impacto da exclusão do sistema SWIFT. A tendência aproxima ambos os países em termos diplomáticos, com exercícios militares conjuntos no Pacífico a serem vistos pelos EUA e seus aliados como um desafio direto à sua presença estratégica.

Tensões discretas e sinais de desconfiança mútua

Apesar das demonstrações de unidade, crescem receios internos na Rússia de que o país se esteja a tornar um “parceiro júnior” da China. Propagandistas ligados ao Kremlin alertam que uma dependência excessiva poderá revelar-se contraproducente.

Uma investigação do ‘New York Times’ revelou que serviços de inteligência russos expressaram preocupação com supostos planos chineses de ampliar a sua influência. O documento descreve alegados esforços para recrutar cidadãos russos com ligações familiares à China e o uso de testes de polígrafo com agentes regressados do país vizinho, indicando níveis significativos de desconfiança.

Especialistas divergem, no entanto, sobre a real intenção chinesa. Alguns argumentam que as apreensões são exageradas e que Pequim procura antes uma expansão gradual e silenciosa da sua influência, enquanto mantém a relação formalmente estável.

Relação estratégica sem ruturas à vista

Patrick Cronin, do Hudson Institute, considera que a China vê a Rússia como um parceiro indispensável para moldar uma ordem internacional pós-hegemonia americana. Em declarações à ‘Newsweek’, Pequim combina “incrementos lentos de soberania efetiva” com demonstrações públicas de solidariedade militar, que ajudam a dissimular a assimetria crescente entre os dois países. Ainda assim, nota que a China parece disposta a aprofundar a sua presença ao longo da fronteira comum através de intrusões cibernéticas e movimentos económicos oportunistas.

Já Lyle Goldstein, do think tank Defense Priorities, afirmou que os laços bilaterais nunca estiveram tão sólidos. Embora admita frustrações pontuais — nomeadamente a perceção russa de que Pequim não apoiou suficientemente Moscovo na guerra da Ucrânia —, garante que não existem crises reais há três décadas e que não antecipa tensões graves num futuro próximo.

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