Homem guarda pedra durante anos a pensar que era ouro. Afinal era muito (mesmo muito) mais valiosa

Um australiano que durante uma década acreditou ter encontrado um enorme nódulo de ouro acabou por descobrir que, afinal, tinha em mãos algo ainda mais raro: um meteorito com 4,6 mil milhões de anos.

Pedro Gonçalves

Um australiano que durante uma década acreditou ter encontrado um enorme nódulo de ouro acabou por descobrir que, afinal, tinha em mãos algo ainda mais raro: um meteorito com 4,6 mil milhões de anos. A revelação, feita por especialistas do Melbourne Museum, transformou uma simples rocha avermelhada de 17 quilos num dos achados científicos mais importantes da região de Victoria.

A história remonta a 2015, quando David Hole, equipado com um detetor de metais, explorava o Maryborough Regional Park, nos arredores de Melbourne. Ao detetar um objeto pesado enterrado em argila amarela, convenceu-se de que tinha encontrado um valioso pedaço de ouro — afinal, tratava-se de uma zona associada ao auge da corrida ao ouro na Austrália no século XIX.



Determinando a abrir o bloco rochoso, Hole tentou serras, brocas, uma rebarbadora e até ácido. Nem mesmo uma marreta foi suficiente para produzir uma fenda. Só muito mais tarde descobriria que aquela resistência extrema era precisamente uma das características do que tinha diante de si: um meteorito.

Ainda intrigado com o peso e a dureza da pedra, David Hole levou-a ao Melbourne Museum. A reação dos geólogos foi imediata. “Tinha aquele aspeto esculpido, com pequenas covas”, explicou Dermot Henry ao Sydney Morning Herald. Segundo o especialista, estas formas resultam da passagem pela atmosfera, quando a superfície se funde parcialmente e fica marcada pelo atrito.

Henry, que avaliou milhares de rochas ao longo de quase quatro décadas no museu, admitiu que apenas duas delas se revelaram meteoritos genuínos — e esta era uma delas. Bill Birch, também geólogo do museu, reforçou: “Se encontrasse uma rocha assim na Terra e a levantasse, não deveria ser tão pesada”.

Um meteorito de 17 quilos e 4,6 mil milhões de anos
Após cortar uma pequena fatia com uma serra de diamante, a equipa concluiu que se tratava de um meteorito do tipo H5, com um elevado teor de ferro. No interior eram visíveis os chondrules, minúsculas gotas cristalizadas de minerais metálicos formadas nos primórdios do Sistema Solar. O objeto acabou por ser batizado de “Maryborough”, em homenagem à localidade onde foi encontrado, e descrito num estudo científico publicado na Proceedings of the Royal Society of Victoria.

O meteorito pesa 17 quilos e poderá ter caído na Terra há entre 100 e 1.000 anos, segundo análises por datação de carbono. As autoridades científicas recordam que existem registos de quedas luminosas entre 1889 e 1951 que podem estar relacionadas com a sua chegada.

Dermot Henry sublinha o enorme valor científico do achado. “Os meteoritos são a forma mais barata de exploração espacial. Transportam-nos de volta no tempo, revelando pistas sobre a idade, a formação e a química do nosso Sistema Solar”, afirmou. Alguns contêm até “stardust” anterior ao próprio Sol, enquanto outros incluem moléculas orgânicas como aminoácidos.

O geólogo defende que o Maryborough é “muito mais raro do que o ouro”, lembrando que apenas 17 meteoritos foram registados no estado de Victoria — e que milhares de pepitas já foram encontradas. “O encadeamento de acontecimentos que permitiu esta descoberta é, diria, astronómico”, resumiu.

Um fragmento vindo do cinturão de asteroides

Os investigadores acreditam que o meteorito tenha origem no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, provavelmente libertado após colisões com outros corpos celestes antes de colidir com a Terra. A raridade do achado e o seu excelente estado de conservação tornam-no um dos objetos mais valiosos estudados na região.

De “pedra impossível de partir” a relíquia científica
A história de David Hole junta-se a outras descobertas improváveis — incluindo meteoritos que serviram como calços de porta durante décadas. As autoridades científicas australianas destacam que muitos destes objetos acabam por ser ignorados durante anos por parecerem simples rochas.

O caso do Maryborough sugere que mais tesouros do espaço podem estar escondidos em quintais, bosques ou campos. Tal como concluiu Henry, talvez valha a pena verificar se aquela “pedra demasiado pesada” afinal não é um pedaço do cosmos.

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