“Fogo amigo”: Trump enfrenta revolta crescente dentro do próprio partido enquanto aprovação cai para mínimos históricos

A presidência de Donald Trump, que começou com o ímpeto de um comandante a derrubar portas e a “inundar a zona” com decisões políticas em todas as frentes — da imigração ao comércio, passando pela política externa — enfrenta agora uma fissura interna que se aprofunda de semana para semana.

Pedro Zagacho Gonçalves

A presidência de Donald Trump, que começou com o ímpeto de um comandante a derrubar portas e a “inundar a zona” com decisões políticas em todas as frentes — da imigração ao comércio, passando pela política externa — enfrenta agora uma fissura interna que se aprofunda de semana para semana. Depois de quase um ano marcado por confrontos sucessivos com a oposição, a turbulência passa agora para dentro do próprio Partido Republicano, numa altura em que o índice de aprovação do presidente atinge apenas 36%, segundo a Gallup, o valor mais baixo desde que iniciou o segundo mandato.

A diminuição do entusiasmo entre republicanos no Congresso tem-se tornado cada vez mais evidente nos últimos meses. Um deputado do partido, sob anonimato, descreveu ao portal conservador Punchbowl News um ambiente de desgaste generalizado: “Toda esta equipa da Casa Branca tratou TODOS os membros como lixo. A TODOS. E Mike Johnson permitiu isso”, afirmou, acusando a administração de atuar com “arrogância” e de impedir até pequenos anúncios de verbas ou respostas de agências federais.

Esse descontentamento não é isolado. Nas horas seguintes à publicação deste testemunho, vários congressistas contactaram o jornalista Jake Sherman para confirmar que partilhavam a mesma frustração. E houve casos públicos, como o de Marjorie Taylor Greene, que passou de aliada incondicional de Trump a anunciar a saída do Congresso, ao mesmo tempo que era acusada de “traidora”.

Crescente desafio republicano e votações de rutura
A situação agravou-se quando Greene e outros três republicanos votaram a favor de desclassificar os arquivos relacionados com Jeffrey Epstein. A ruptura alastrou rapidamente pelo partido. Quando surgiu o rumor de que a proposta iria receber o apoio de cerca de cem republicanos, Trump acabou por se colocar do lado vencedor e declarou que também apoiava a iniciativa. O resultado final foi esmagador: todos os republicanos da Câmara, excepto um, votaram a favor, e o Senado aprovou por unanimidade.

A rebelião não se ficou por aí. O presidente pediu aos senadores do seu partido para abolirem o filibuster — regra que exige 60 votos para avançar com legislação —, mas a liderança republicana rejeitou a ideia. Também recusou a proposta de Trump para distribuir cheques de 2.000 dólares financiados por receitas aduaneiras.

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No Estado do Indiana, onde os republicanos controlam ambas as câmaras legislativas, onze parlamentares resistiram à pressão presidencial para redesenhar distritos eleitorais de forma a favorecer o partido no Congresso. Trump respondeu ameaçando destruir as carreiras desses legisladores, e vários deles receberam ameaças de morte.

Na mesma linha, o senador estadual Mike Bohacek tornou-se num dos casos mais emblemáticos e polémicos ao recusar apoiar a medida, recordando que Trump tinha utilizado o termo “retardado” para insultar o governador democrata do Minnesota, Tim Walz. Bohacek, que tem uma filha com síndrome de Down, revelou ter recebido uma ameaça de bomba nesse mesmo dia. “Este padrão recente de comportamento ameaçador e tentativas de intimidação não só é preocupante, como também ilegal”, afirmou, pedindo que “a justiça atue”.

Resultados eleitorais negativos e queda contínua nos indicadores de apoio
Os líderes republicanos começam a olhar para a trajetória política de Trump com crescente inquietação. As recentes eleições para os governos de Virgínia, Nova Jérsia e para a alcaldia de Nova Iorque resultaram em vitórias democratas mais amplas do que o previsto. Para muitos analistas, esses resultados funcionaram como um referendo informal ao desempenho presidencial.

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Os números reforçam a tendência negativa. A Gallup indica que Trump tem agora apenas 43% de aprovação na área de combate ao crime, a melhor entre os sectores avaliados. Na gestão do orçamento federal, no conflito na Ucrânia e na área da saúde, os índices rondam apenas os 30%. Entre os eleitores independentes — decisivos em qualquer ciclo eleitoral — a popularidade cai para 29%, o valor mais baixo de ambos os mandatos.

Posicionamentos de longo prazo e incerteza em torno de 2028
Desde janeiro, 26 congressistas republicanos anunciaram que vão abandonar os cargos ou reformar-se, um número anormalmente elevado antes das eleições intercalares. Cada um desses lugares em aberto representa um risco: basta perder alguns para que os democratas recuperem a Câmara dos Representantes antes mesmo de as midterms chegarem.

E paira ainda outra dúvida sobre o futuro. Trump gosta de sugerir — ora negando, ora insinuando, ora vendendo bonés com “Trump 2028” — que pode tentar um terceiro mandato. Mas enfrenta duas barreiras intransponíveis: a Constituição, que limita qualquer presidente a dois mandatos completos, e a idade. O presidente fará 80 anos em junho e completará o mandato com 82, trabalhando actualmente com uma agenda mais curta e sinais visíveis de fadiga em aparições públicas.

Como resultado, muitos senadores, cujo mandato é de seis anos e sobreviverá ao ciclo presidencial, começam a sentir-se mais confortáveis em distanciar-se da Casa Branca em temas como a política para Israel ou a desclassificação de documentos sensíveis.

Um Congresso em transformação… e um presidente a governar por decreto
Apesar da turbulência vivida, os analistas sublinham que qualquer previsão deve ser feita com cautela. Trump tem demonstrado capacidade para governar por decreto, contornando o Congresso ou levando-o a aprovar medidas a contragosto. Tem também reduzido estruturas do Governo federal em nome da austeridade e da transparência, tornando o aparelho de Estado mais dependente da Casa Branca.

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Mesmo que os democratas recuperem o controlo de uma ou ambas as câmaras, a questão central é saber se o Congresso terá, nessa altura, o peso institucional que teve durante décadas. A erosão começou antes de Trump, mas o presidente acelerou o processo como “um bulldozer”, dizem críticos dentro e fora do partido.

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