Quando a China baixa os preços… a Europa começa a tremer: a ‘queda silenciosa’ na Ásia que pode mudar tudo

A pressão desinflacionista que preocupa o Banco Central Europeu começa a tornar-se visível nos mercados vizinhos da China

Francisco Laranjeira
Novembro 17, 2025
18:16

A pressão desinflacionista que preocupa o Banco Central Europeu começa a tornar-se visível nos mercados vizinhos da China. Segundo o ‘El Economista’, o desvio massivo de produtos chineses — resultado da guerra comercial e de tarifas mais elevadas — está a empurrar empresas de Pequim para novos destinos, levando a um excedente de oferta que reduz preços em vários sectores. Este fenómeno, que já afeta países asiáticos, poderá replicar-se na Europa caso a dinâmica se intensifique.

Os dados do relatório ‘Perspectivas de Desenvolvimento Asiático’ mostram que a inflação na região deverá cair para 1,7% em 2025, depois de 2,3% no segundo trimestre deste ano e 2,8% em 2024. Em 2026, o indicador deverá fixar-se nos 2,1%. Paralelamente, a ‘Capital Economics’ destaca uma queda de 20% nos preços das exportações chinesas, explicada pela “capacidade ociosa persistente e pela forte concorrência”.

A consultora estima que as importações chinesas de consumo direto representem entre 3% e 12% do PIB dos países asiáticos, o que levou a reduções dos preços ao consumidor entre 0,8% e 2,4%. Este processo plurianual começou em 2022, quando as exportações chinesas para os EUA atingiram um pico e, desde então, parte da produção tem sido redirecionada para outros mercados.

A Tailândia é um dos casos mais expressivos: a ambição de se tornar a “Detroit da Ásia” coincidiu com uma queda de 6% nos preços dos automóveis, fruto da entrada massiva de veículos chineses. Tendência semelhante verificou-se nos smartphones no Vietname e em Singapura, replicando-se em grande parte dos bens exportados pela indústria chinesa.

A Asia Society confirma que a ASEAN enfrenta agora pressões crescentes devido à supercapacidade industrial chinesa, que desde 2023 aumentou significativamente as exportações para a região. Em 2024, estas cresceram 12%, tornando os países da ASEAN no maior destino de exportações da China, ultrapassando a UE e os EUA. Em 2025, o comércio entre a China e a Ásia atingiu valores recorde, com um crescimento de 9,7%, equivalente a cerca de 694 mil milhões de dólares.

Energia, alimentos e câmbio também travam inflação

Apesar do peso da supercapacidade chinesa, a desinflação asiática não se explica apenas por esse fator. O Banco Asiático de Desenvolvimento aponta para a descida generalizada dos preços da energia e dos alimentos — sobretudo destes últimos — como um contributo determinante. A Nomura acrescenta que a normalização das cadeias de abastecimento, após os anos de rutura pandémica, também ajudou a aliviar pressões.

O fortalecimento das moedas asiáticas face ao dólar reduziu ainda os custos de importação, reforçando o movimento desinflacionista em vários mercados.

Risco chega à Europa com queda nas importações e procura interna fraca

Nos primeiros nove meses do ano, as exportações chinesas cresceram 7,5%, totalizando 369,04 mil milhões de dólares. Este aumento poderá ser central para uma futura tendência desinflacionista na zona euro, num contexto em que os preços da energia recuam, acompanhando a queda do petróleo bruto.

O BCE reconhece o risco. Economistas da instituição apontam a fraca procura interna europeia como um dos principais fatores para o aumento das exportações chinesas para a Europa, mais do que o desvio provocado pelas tarifas. O banco central calcula que o aumento da oferta e a consequente redução dos preços das importações poderão diminuir a inflação da zona euro até 0,15 pontos percentuais, recordando que durante a guerra comercial de 2018 as importações chinesas para o bloco europeu subiram entre 2% e 3%.

A situação é mais delicada agora. A UE continua a ser uma alternativa natural para o comércio chinês, mas há dois fatores adicionais: a presença consolidada de empresas chinesas com infraestrutura instalada e margens de lucro mais reduzidas, permitindo-lhes competir de forma mais agressiva no mercado europeu.

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