Putin transforma escolas russas em centros de treino militar para adolescentes

Um recente programa da televisão pública russa mostrou crianças entre seis e oito anos, na região de Kursk, fronteiriça com a Ucrânia, em posição de firme perante um militar veterano do conflito ucraniano, a receberem instruções rigorosas sobre a postura e o uniforme.

Pedro Gonçalves

Um recente programa da televisão pública russa mostrou crianças entre seis e oito anos, na região de Kursk, fronteiriça com a Ucrânia, em posição de firme perante um militar veterano do conflito ucraniano, a receberem instruções rigorosas sobre a postura e o uniforme. Segundo uma reportagem do Wall Street Journal, o oficial ordenou: “As fivelas devem olhar para a frente”, exemplificando a militarização das escolas desde o primário, numa tendência que se acentuou desde a anexação da Crimeia, em 2014, e especialmente após a invasão da Ucrânia em 2022.

A reorientação educativa inclui, agora, nas escolas secundárias, disciplinas de manuseamento de armas que antes eram opcionais, tornando-se obrigatórias. Os adolescentes aprendem técnicas de montagem de um fuzil Kaláshnikov, pilotagem de drones e disciplina militar. Além disso, novos manuais de História enquadram o Ocidente como inimigo estratégico e a Ucrânia como um Estado subordinado, refletindo o esforço do Kremlin em preparar os alunos para cenários de guerra futuros.



A mobilização de soldados em ativo para funções educativas tem sido um pilar da estratégia. O próprio presidente Vladimir Putin afirmou em dezembro de 2023 que “as guerras são vencidas pelos professores” e incentivou combatentes a assumirem papéis de docentes, com os pedidos a serem processados de forma acelerada. Especialistas alertam que a política visa moldar uma geração leal, pronta a empunhar armas sem questionar a autoridade do Estado. A politóloga Ekaterina Schulmann explicou ao Wall Street Journal que, na lógica do Kremlin, “serão soldados mais baratos e eficazes”, enquanto o investigador Ian Garner acrescentou que a intenção oficial é preparar as crianças “ideológica e psicologicamente” para a guerra.

O impacto não se limita ao território russo. Investigação do Kyiv Independent revelou que altos comandos russos organizam programas de treino militar para menores ucranianos provenientes de áreas ocupadas, em campos da região de Volgogrado. Estes jovens aprendem combate, manuseamento de drones, granadas e armamento leve, sob supervisão de veteranos de Chechénia, Síria e Donbás, incluindo Andranik Gasparyan, atual comandante do Centro Guerreiro, e Igor Vorobyov, responsável local do centro.

A pressão sobre os menores é acompanhada por mensagens que exaltam o sacrifício e a disciplina, transmitidas por apresentadores próximos do poder, como Vladímir Soloviov. Nas escolas, foram criados “pupilos heróis” em homenagem a antigos alunos mortos na Ucrânia. Professores que recusam ministrar conteúdos militarizados enfrentam processos penais; é o caso de Natalia Taranushenko, de Moscovo, condenada a sete anos de prisão por expor aos alunos abusos cometidos por tropas russas, salvando-se apenas por ter saído do país antes da detenção.

O controlo do Estado é abrangente e atingiu também artistas. A cantora Diana Loginova, de 18 anos, foi detida em São Petersburgo por interpretar obras de autores críticos do Kremlin e cumpriu várias penas de prisão. Em 2024, o governo russo destinou mais de 50 mil milhões de rublos (cerca de 500 milhões de euros) a programas patrióticos e cerca de quatro mil milhões (43 milhões de euros) para equipar 23 mil escolas com réplicas de armamento e kits de drones. Nas zonas ocupadas da Ucrânia, os manuais em língua ucraniana foram retirados e a História nacional eliminada dos horários escolares, reforçando a narrativa de domínio e doutrinação do Kremlin.

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