Rússia ‘importa’ 12 mil trabalhadores norte-coreanos para acelerar produção de drones Shahed

HUR indica que cada trabalhador deverá receber cerca de 2,5 dólares por hora e cumprir turnos de 12 horas, um padrão que reflete o modelo de exportação de mão de obra controlado pelo Estado norte-coreano

Francisco Laranjeira
Novembro 14, 2025
12:38

A Rússia está a preparar-se para importar até 12 mil trabalhadores norte-coreanos para reforçar a produção de drones de longo alcance Shahed na Zona Económica Especial de Alabuga, no Tartaristão, revelou esta sexta-feira a inteligência militar ucraniana (HUR). Segundo o ‘Kyiv Post’, a operação surge numa fase em que a capacidade industrial russa enfrenta pressão crescente devido às exigências da guerra na Ucrânia.

O Tartaristão, situado na região do Volga e conhecido pelas suas zonas industriais, tornou-se um centro estratégico para a montagem dos drones Shahed/Geran usados nos ataques frequentes contra cidades e infraestruturas civis ucranianas. O plano prevê que os trabalhadores enviados por Pyongyang cheguem a Alabuga até ao final de 2025.

De acordo com o ‘Kyiv Post’, funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo reuniram-se no final de outubro com representantes da empresa norte-coreana Jihyang Technology Trade Company, responsável pela seleção e envio de mão de obra. As conversas focaram-se na transferência dos trabalhadores e nas condições de emprego.

A HUR indica que cada trabalhador deverá receber cerca de 2,5 dólares por hora e cumprir turnos de 12 horas, um padrão que reflete o modelo de exportação de mão de obra controlado pelo Estado norte-coreano. Para Kiev, esta cooperação ilustra o esforço de Moscovo para contornar a escassez de mão de obra e aprofundar laços políticos e militares com Pyongyang.

Cooperação militar e fornecimentos sem precedentes

A Ucrânia tem alertado para o apoio crescente da Coreia do Norte ao esforço de guerra russo, através do envio de munições, tecnologia e mesmo tropas. Kim Jong-Un afirmou recentemente que o país registou um aumento acentuado de jovens interessados em ingressar nas forças armadas, após o envio de milhares de soldados norte-coreanos para a região de Kursk.

Em 2024, surgiram relatos de que Pyongyang poderia fornecer 50 a 100 unidades de equipamento militar, incluindo tanques M2010 e veículos blindados BTR-80. O chefe do HUR, Kyrylo Budanov, estima que a Coreia do Norte já assegura cerca de 40% da munição de 122 mm e 152 mm utilizada pelo exército russo, produzida de forma contínua.

Alguns sistemas enviados inicialmente apresentaram desempenho deficiente, mas foram posteriormente modificados, tornando-se mais eficazes. Entre eles está o míssil KN-23 modernizado, com alcance de 690 quilómetros, cuja precisão aumentou substancialmente após ajustes russos.

Força de trabalho estrangeira e impacto no terreno

A presença norte-coreana na guerra intensificou-se no último ano. Estimativas de inteligência sugerem que pelo menos 10 mil soldados norte-coreanos foram enviados para a frente, onde participaram em combates contra a Ucrânia. Em regiões ocupadas como Donetsk e Lugansk, Moscovo terá ainda projetado o emprego de cidadãos norte-coreanos em trabalhos de construção, numa tentativa de colmatar a crise laboral agravada pelo conflito.

No outono de 2024, um ataque ucraniano com mísseis a posições russas perto de Donetsk matou mais de 20 militares, incluindo seis oficiais norte-coreanos que se encontravam no local para reuniões com homólogos russos. Outros três ficaram feridos.

A crescente cooperação, reforçada após encontros entre Vladimir Putin e Kim Jong-Un, estende-se também à esfera diplomática, com Pyongyang a aceitar abrir missões em Donetsk e Luhansk. Para Kiev, esta aproximação confirma uma parceria estratégica entre duas ditaduras que, na prática, prolonga e intensifica a guerra no leste europeu.

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