E se deixasse de tomar banho? A ciência explica o que acontece ao corpo humano

Ao longo da história, o hábito de tomar banho tem oscilado entre a necessidade e a repulsa

Francisco Laranjeira

Ao longo da história, o hábito de tomar banho tem oscilado entre a necessidade e a repulsa. Na Roma Antiga, os banhos públicos eram eventos sociais de grande dimensão, frequentados por todas as classes. Já na Europa do início da era moderna, o contacto com a água limpa era temido, por se acreditar que transmitia doenças. Só mais tarde o banho passou a ser considerado essencial — um sinal de conforto e modernidade.

Essa mudança cultural levanta uma questão: o que acontece quando as pessoas decidem deixar de se lavar?



Histórias de quem desistiu da água

O iraniano Amou Haji, conhecido como o “homem mais sujo do mundo”, viveu mais de meio século sem se aproximar de água ou sabão. Acreditava que o banho o deixaria doente. Com o corpo coberto de sujidade e um estilo de vida isolado, Haji alimentava-se de carne em decomposição e fumava vários cigarros ao mesmo tempo.

Após décadas de resistência, acabou por ceder à pressão dos vizinhos e tomou um banho — meses depois, morreu aos 94 anos. Apesar das especulações de que a lavagem teria causado a sua morte, não há qualquer evidência científica que o comprove.

Outro caso é o de Kailash Singh, agricultor indiano que há mais de 35 anos não se lava nem escova os dentes. Segundo o ‘IFLScience’, Singh acredita que foi abençoado por um vidente que lhe garantiu um filho se evitasse a água. Para “purificar-se”, recorre a um “banho de fogo”: acende uma fogueira diária, convencido de que as chamas matam os germes.

Casos semelhantes existem há séculos. No século XVIII, o londrino Nathaniel Bentley — conhecido como “Dirty Dick” — tornou-se célebre por se recusar a tomar banho após a morte trágica da noiva. A sua casa e armazém eram tão imundos que as cartas endereçadas a “O Armazém Sujo, Londres” chegavam-lhe sem erro.

Quando a falta de higiene se torna um risco

De acordo com a dermatologista Samantha Eisman, citada pelo ‘IFLScience’, a pele humana alberga um “delicado equilíbrio” entre bactérias benéficas e organismos potencialmente nocivos. Lavar-se em excesso ou, pelo contrário, não se lavar o suficiente pode perturbar esse equilíbrio natural.

A consequência mais imediata da falta de banho é o odor corporal, causado pela acumulação de suor e bactérias. Entre estas, destaca-se o Staphylococcus aureus, microrganismo associado a infeções cutâneas que, em casos graves, podem tornar-se fatais.

A ausência de higiene também provoca o cúmulo de células mortas na pele — uma camada conhecida como estrato córneo, responsável por deixar a superfície mais espessa e rígida. Além disso, a falta de lavagem das mãos aumenta o risco de transmissão de doenças, especialmente em períodos de gripe ou Covid-19.

As doenças que podem agravar-se sem banho

Entre as condições dermatológicas que pioram com a falta de higiene, Eisman destaca:

– Acne, devido à oleosidade e inflamação dos poros;

– Dermatite atópica e eczema, com secura e irritação da pele;

– Dermatite seborreica, associada à caspa e à inflamação do couro cabeludo;

– Infeções de pele, como foliculite e úlceras;

– Hidradenite supurativa, doença inflamatória crónica.

Lavar-se demais também tem riscos

Mas o extremo oposto também não é saudável. Tomar banho várias vezes ao dia pode causar eczema, pele seca e rosácea. A especialista recomenda banhos curtos, com água morna, sabonetes sem fragrância e hidratação imediata após a lavagem.

A frequência ideal varia de pessoa para pessoa. Há quem defenda banhos diários e quem considere suficiente fazê-lo duas ou três vezes por semana. O essencial, concordam os dermatologistas, é ouvir o corpo e adaptar os hábitos de higiene às necessidades individuais.

Seja no luxo das termas romanas ou nas crenças excêntricas de quem evita a água, o banho continua a ser um reflexo cultural e biológico. A ciência mostra que a limpeza em excesso ou em falta pode comprometer o equilíbrio natural da pele — e, no fim, o segredo está no meio-termo.

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