Um país a duas velocidades: Interior Norte do país tem três vezes menos poder de compra do que Lisboa

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que, em 2023, a desigualdade regional manteve-se profunda

Revista de Imprensa
Novembro 7, 2025
9:45

Quem vive em concelhos como Tabuaço, Penamacor, Vimioso, Vinhais ou Baião dispõe de menos de metade do poder de compra de quem mora no Porto — e quase três vezes menos do que os residentes em Lisboa. Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que, em 2023, a desigualdade regional manteve-se profunda: o poder de compra continua fortemente concentrado nas áreas metropolitanas, enquanto o interior do país permanece abaixo da média nacional.

Segundo o ‘Jornal de Notícias’, fora das grandes cidades só as capitais de distrito conseguem ultrapassar o valor médio nacional do indicador per capita, o que revela o acentuado desequilíbrio económico entre litoral e interior.

O estudo do INE identifica as sub-regiões do Alto Tâmega e Barroso (73,92), Tâmega e Sousa (76,28) e Douro (79,82) como as zonas com menor poder de compra em Portugal continental. Entre os dez municípios com piores resultados, nove situam-se no Norte e apenas um no Centro.

Em concelhos mais afastados da faixa litoral, a diferença é expressiva: em Vimioso (63,8) ou Baião (64,54), o poder de compra é mais de duas vezes inferior ao do Porto e quase três vezes menor do que o da capital. Os autarcas ouvidos pelo jornal diário apontam à falta de investimento público e à ausência de políticas de coesão territorial como causas estruturais para o atraso económico.

Autarcas pedem investimento e políticas de coesão

Em Vimioso, o presidente da Câmara, António Santos, considera “alarmantes” os dados do INE e sublinha que o concelho enfrenta um dos índices de envelhecimento mais elevados do país — 447 idosos por cada 100 jovens. Para o autarca, as baixas reformas e a escassez de investimento público limitam a criação de riqueza e a fixação de empresas. “Só com investimento se pode viabilizar o território e melhorar o poder de compra”, defende, destacando o papel dos apoios sociais, das bolsas de estudo e do gabinete de emprego que a autarquia tem promovido.

Em Baião, que ocupa a pior posição do distrito do Porto, a presidente da Câmara, Ana Raquel Azevedo, alerta para a “agravação do problema estrutural da desigualdade territorial”. Recorda que, entre 2005 e 2023, o concelho passou de terceiro para último no rendimento per capita do Tâmega e Sousa e desceu da 294ª para a 301ª posição entre 308 municípios do país. “É urgente apostar em políticas públicas de coesão territorial e incentivos ao desenvolvimento dos territórios periféricos”, afirma.

A autarca, recentemente eleita, quer inverter a tendência e já iniciou contactos para formar uma equipa dedicada à “promoção, divulgação e captação de investimento” que permita atrair empresas, criar emprego qualificado e travar a erosão demográfica.

Espinho junta-se ao grupo de municípios acima da média

Em 2023, apenas 31 dos 308 municípios portugueses tinham um poder de compra superior à média nacional. A maioria situa-se junto às grandes metrópoles: seis na Grande Lisboa, quatro na Península de Setúbal e seis na Área Metropolitana do Porto.

Lisboa lidera o ranking, com um índice de 181,35 — ainda que em ligeira queda face a 2021 —, seguida pelo Porto, que subiu de 147,6 para 162,2, e por Oeiras, que desceu de 165,5 para 150,1. Na região do Porto, Espinho ultrapassou pela primeira vez a média nacional e juntou-se à Invicta, Matosinhos, Maia, São João da Madeira e Gaia.

No conjunto do país, poucas localidades fora das capitais de distrito atingem valores acima da média. Cidades como Braga, Aveiro, Coimbra, Leiria, Beja, Évora e Faro mantêm-se bem posicionadas, confirmando o padrão de maior concentração de rendimento nos centros urbanos.

Lisboa e Porto concentram quase metade do poder de compra

De acordo com o JN, a Grande Lisboa (25,5%) e a Área Metropolitana do Porto (18%) representavam, em conjunto, 43,5% do poder de compra nacional, embora reunissem apenas 36,9% da população.

O dinamismo económico associado ao turismo também tem impacto, sobretudo no Algarve, onde concelhos como Vila do Bispo, Albufeira, Lagos, Loulé, Lagoa ou Tavira apresentam índices mais elevados do que seria expectável para a média regional.

Ainda assim, 106 municípios — cerca de um terço do território nacional — continuam com valores de poder de compra inferiores a 75, num país cuja média é 100. O retrato de 2023 confirma, assim, que o interior se mantém em desvantagem face às grandes áreas urbanas, com diferenças que o tempo ainda não conseguiu corrigir.

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