Aumento do nível do mar ameaça mais de 100 milhões de edifícios: Europa também está em risco

O aumento contínuo do nível do mar pode colocar mais de 100 milhões de edifícios em perigo de inundação, caso as emissões de combustíveis fósseis não sejam rapidamente reduzidas, alerta um novo estudo publicado na revista Urban Sustainability.

Pedro Gonçalves

O aumento contínuo do nível do mar pode colocar mais de 100 milhões de edifícios em perigo de inundação, caso as emissões de combustíveis fósseis não sejam rapidamente reduzidas, alerta um novo estudo publicado na revista Urban Sustainability. A investigação, conduzida por uma equipa internacional de cientistas da Universidade McGill, no Canadá, é a primeira a avaliar, edifício a edifício, o impacto das futuras subidas do nível do mar sobre infraestruturas costeiras em países do Sul Global — incluindo África, Sudeste Asiático e América Central e do Sul.

Os investigadores utilizaram imagens de satélite e dados detalhados de elevação para estimar o número de edifícios que seriam “inundados” sob diferentes cenários de subida do mar, variando entre 0,5 e 20 metros. Mesmo no cenário mais otimista — com fortes reduções nas emissões — cerca de três milhões de edifícios seriam afetados regularmente por inundações.



“O aumento do nível do mar é uma consequência lenta, mas imparável do aquecimento global, que já está a impactar as populações costeiras e continuará durante séculos”, afirmou a professora Natalya Gomez, coautora do estudo e titular da Cátedra de Investigação do Canadá em Interações entre Calotas de Gelo e Nível do Mar na Universidade McGill.

A especialista sublinha que, embora as pessoas falem habitualmente de aumentos de “dezenas de centímetros ou, no máximo, um metro”, a realidade é potencialmente mais grave: “O mar pode continuar a subir vários metros se não pararmos rapidamente de queimar combustíveis fósseis.”

“Ficámos surpreendidos com a dimensão do risco”
Os resultados do estudo mostram que um aumento de cinco metros ou mais — possível num horizonte de alguns séculos — poderia colocar mais de 100 milhões de edifícios em risco direto.

“Ficámos surpreendidos com o grande número de edifícios expostos a um aumento relativamente modesto do nível do mar”, afirmou o professor Jeff Cardile, também da Universidade McGill e coautor da investigação. “Alguns países costeiros estão muito mais expostos do que outros, devido à topografia e à localização das suas infraestruturas.”

Grande parte desses edifícios encontra-se em zonas densamente povoadas e de baixa altitude, o que significa que infraestruturas críticas e bairros inteiros poderão ser afetados.

Impacto global e consequências económicas na Europa
Embora o estudo se concentre nas regiões do Sul Global, os investigadores alertam que nenhum continente está imune à ameaça da subida dos mares. A Europa, em particular, poderá enfrentar enormes custos económicos e danos irreversíveis em património histórico e infraestruturas essenciais.

Uma investigação publicada na revista Scientific Reports no ano passado estimou que, sob um cenário de elevadas emissões, as perdas económicas para a União Europeia e o Reino Unido poderão atingir os 872 mil milhões de euros até 2100. O estudo analisou dados sobre 155 eventos de cheias registados entre 1995 e 2016 e cruzou-os com previsões de crescimento económico de 2% ao ano em todas as regiões.

As zonas mais vulneráveis incluem as regiões italianas de Véneto e Emília-Romanha, a província polaca de Zachodniopomorskie, as áreas costeiras do Mar Báltico, bem como as costas belga, francesa e grega.

Veneza, Barcelona e Delos: exemplos de uma ameaça já visível
Os efeitos do aumento do nível do mar são já evidentes em várias partes da Europa. Em Barcelona, moradores alertam que as praias artificiais estão a desaparecer devido à erosão provocada pelas alterações climáticas.

Em Veneza, as inundações históricas de 2019 — resultantes da combinação entre marés altas e precipitação intensa — provocaram centenas de milhões de euros em prejuízos. Na Grécia, a ilha de Delos, classificada como Património Mundial da UNESCO, enfrenta danos estruturais crescentes em ruínas milenares devido à subida do nível do mar e ao aumento da frequência de tempestades.

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